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Quem ensina quem



 
 
As mãos enterradas fundo nos bolsos, o queixo um pouco deitado sobre o peito arqueando-lhe as costas largas, o olhar vigilante perante o desfile ruidoso daqueles pés pequenos que matraqueavam o soalho a compasso de gargalhadas e puxões de cabelo e fitas de bata armadas em laços farfalhudos.
O Prof. Ricardo de pé, mais alto que a sua altura por estar no estrado que vigiava a sala de aula, aguardava em silêncio que os novos alunos se acomodassem. A pasta de cabedal, manchada na pega e no fecho de metal pelo uso da mão, estava gorda de papéis.
Entraram vinte e três. Ele fechou a porta. Identificou-se como o Prof. Ricardo de Ciências Sociais e Humanas. Apercebeu-se da troca de olhares e algum pânico na cara daqueles miúdos de onze e doze anos. Tentou suavizar o ambiente e perguntou-lhes o nome individualmente: pela primeira vez haviam turmas mistas e só três no total daquela escola. Organizou o discurso, tentando disfarçar o seu nervosismo com as mãos ainda escondidas, um tom de voz demasiado baixo para que no fundo da sala se pudesse escutar, começando por explicar que “eles” faziam parte de um projecto-piloto, único no País; que iriam ter disciplinas de que nunca teriam ouvido falar mas que ele, assim como os outros colegas estavam ali para os ajudarem.
E a primeira coisa a fazerem era aproximarem-se uns dos outros: pediu que dessem as mãos mas rapidamente um rapazinho sardento e de nariz afiado concluiu que era uma tarefa impossível, por causa das secretárias dispostas como bancos de autocarro. O Prof. Ricardo mandou-os levantar e dirigiu-se ao altivo estrado e pediu que um deles tomasse assento à sua mesa e então daí, tentasse agarrar a mão dos outros. Gargalhada geral que todos perceberam a incapacidade.
O Prof. Ricardo pegou na sua secretária e levou-a para junto das dos alunos, puxando igualmente as mesas deles e pedindo ajuda, dirigiu as mudanças no meio de um reboliço barulhento, com muito arrastar e gargalhada à mistura, enganando-se uma e outra vez a chamar pelos nomes deles, o que só provocava mais riso entre todos.
No final, todos ficaram silenciosos a olhar para o resultado: agora havia um círculo perfeito e fechado, uma mesa redonda gigante. Sentaram-se e sem pedido, o Prof. Ricardo viu formar-se uma corrente de mãos, sendo ele o ultimo a atar as suas nas pequeninas que se lhe davam.
Percebeu de imediato que aquelas eram gentes especiais, muito longe das turmas problemáticas que até então havia tido e resolveu jogar tudo de uma só vez: distribuiu, fazendo correr os programas de mesa em mesa, um tema a ser estudado e debatido; seriam eles que levariam o material de estudo e apresentariam para os demais o trabalho feito em grupos; cada grupo teria um moderador e um orador.
Uma menina assustou-se e inquiriu o Prof. Ricardo quanto aos testes, quanto à maneira de recitar as aulas, quanto aos livros e o material a comprar…ele sobressaltou-a mais ainda quando, claro e bom som, decretou que não haveria testes ou exames com ele. Apresentou a bibliografia a procurarem os sítios onde deveriam ir, sublinhando o pormenor dum jardim junto ao sítio tal ou tal, ou uma casa de gelados onde deveriam experimentar o molho de morangos com amêndoas.
O grupo barulhento estava perplexo, sem saber se isso era bom ou mau.
Entrou a Prof. Teresa com um gravador pendurado e os alunos levantaram-se.
Ela fez sinal com a mão, num gesto leve de pluma que cai, para que se sentassem e beijou o Prof. Ricardo nas faces, ligou o gravador à tomada e com um dedo esticado calcou um botão preto que de imediato, fez soltar uma voz forte e rouca que proferia “OH! Lord, won’t you bye me?”.
Os dias passaram, as semanas, as férias escolares vieram mas sempre se encontravam: ou numa biblioteca ou se organizavam para irem professores e alunos ao cinema ver um filme sobre o nazismo e o colaboracionismo, ou uma exposição sobre Rodin, até mesmo à Ópera foram.
Um ano decorreu desde que o Prof. Ricardo havia esperado por aqueles miúdos, que agora que se aproximava o segundo ano desse projecto-piloto, tinham crescido.
A elas crescera-lhes os seios, a eles a voz tornara-se grave, um e outro olhavam-se de forma especial despertando para o amor.
O Prof. Ricardo também estava diferente, mas só por dentro.
Sentia-os não como seus filhos mas como homens e mulheres, amigos, leais, cúmplices de um só sentir.
O segundo dos anos terminou: fizeram uma festa, com muito riso, muita recordação, muitas lágrimas.
Os pequeninos já não eram pequeninos, tinham altura e personalidade definida.
Seguiram os caminhos da vida, um foi médico outra partiu para África para uma causa humanitária, outro cineasta aquela professora de linguagem gestual…
Passaram trinta anos.
Organizaram um jantar, ainda todos estavam vivos e juntos na mesma vontade de se encontrarem.
Os professores tinham falta de cabelo e rugas, reumático e muitos quilos a mais. Mas o sorriso e o brilho nos olhos era tão igual ao que passara.
O Prof. Ricardo bateu as palmas e pediu a atenção de todos.
A rirem e com muito arrastar de cadeiras, levantaram-se os alunos. A Prof. Teresa repetiu o gesto de pomba que levanta voo.
O Prof. Ricardo tirou os óculos que agora tinha de usar e falou do lançamento de um livro seu, que muito gosto tinha em que todos estivessem presentes nesse dia.
Alguém em voz alta, lá do fundo da mesa, gritou:
- “ Como arranjou tempo, sempre a dar aulas, para escrever um livro, Professor?”
Ele enfiou as mãos nos bolsos, nervosamente, as costas agora arqueadas do tempo e da vida.
- “ Depois que se foram embora, só leccionei mais dois anos…foram os piores da minha vida. Não aguentava mais…Não queria mais, sem vocês… Renunciei à colocação e fui demitido! Ainda bem! Senão não estaria aqui, agora, convosco que me ensinaram tudo”.
 
 
24 Janeiro 2006

O eclipse





Uma manta branca de nevoeiro frio e molhado cobria os céus e lentamente como uma dama baixava uma saia suave para a terra.
Nas copas das árvores gotejava um orvalho cristalino que lacrimejava incerto para o solo.
E rápido, um prisma de arco-iris reflectiu rasgando em sete cores aquela água minúscula, atravessado como uma seta, pelo raio do astro maior.
O horizonte pintou-se então bicolor a azul fundo e laranja vivo.
O grito do pássaro deu o sinal de iniciar a vida e o planeta reiniciou a sua marcha.
O Sol, agigantado pelo olhar dos homens e vaidoso da sua imensidão abriu o peito e insuflado como um pecado bufou calor em toda a sua plenitude.
Ela em prata e namoradeira, covinhas de sorriso de raposa foi chegando sem ruído, dois passinhos de cada vez e quando se deu conta, o Sol tinha sido atropelado pela frescura daquela Lua.
Ficou a vê-la atónito, desejoso de lhe tocar, de se dessedentar de tanto calor. Ela ousada e poderosa nele se encostou e gostou daquele quente de desejo que o Sol maior lhe dava, intercâmbio de funções, um mercantilismo de poderes que ninguém entendia.
Dançaram e os homens tementes protegendo os olhos com a palma da mão deixaram que aquela imagem lhes tatuasse na alma para todo o sempre a força que o Sol e a Lua empurravam um para o outro.
Tanto se quiseram que por tempo não medido pelo tempo da Terra, o Sol apareceu a quem tinha o poder de o ver e enfeitou-se de Lua pois primeiro numa dentada, depois num quarto minguante trocou as voltas à volta do Universo e a Lua mascarada de Astro Maior emitiu luz, uma luz branca e amarela como se fosse de seu poder fazê-lo.
Ficou assim parado o Mundo, num anel perfeito que tapou os defeitos dos homens, escureceu os ódios e a mentira, esqueceu as diferenças, apagou a solidão.
E porque a Lua começava a derreter de tanto amor do Sol e o Sol tremia da emoção da Lua, despegaram-se os dois levando um pedacinho de si que vão guardar em gotas de nevoeiro, pinceladas a sete cores do nascer do dia até de novo se encontrarem daqui a vinte anos.
 
 
(Rio Tejo, 3 de Outubro de 2005)

A tomada de Al Ain

 

 
 
 
O amanhecer despontara nevoento e encarniçado, pelo calor que iria fazer pelo dia fora.
O castelo de Al Ain erguia-se altivo, porém assustador envolto naquela bruma misteriosa que não deixa ver com a perfeição que se pretende, todo o seu contorno.
E os olhos dela, habituados a planícies rasgadas de oiro e sol não estavam preparados para aquela penumbra; nem o seu faro se tinha alguma vez destinado a sentir aquele aroma de fungos, bafio e coisa velha que se guardam sem tempo definido.
Até o silêncio parecía amordaçado no século, de tão abafado e denso se sentia.
Ela mantinha-se escondida, expectante na hora do ataque.
Havia vários meses que se alimentava de bagas e raízes como um animal, sempre vigilante naquelas ameias, cuidando para que as saídas e entradas lhe fossem todas conhecidas. Mas por mais que se mantivesse alerta não vislumbrava ninguém a entrar e como tal a sair. Só o Senhor de Al Ain costumava nas noites de lua cheia se passear nos torreões, deslizando como se não tivera pés, mãos presas uma na outra como agrilhoado a si mesmo estivesse, nariz adiantado a farejar perigo que não se via. E sempre, sempre de armadura cinzenta, fria e pesada.
E ela, invasora, certa que não houvera sido descoberta, inquiria-se porque se aferrolhava ele naquele esquife metálico se nada havia a temer. Este Senhor de guerra com nome que fazia tremer os seus inimigos não saía, não montava, não ordenava a seus besteiros que defendessem o seu escudo. Tão só na noite assomava como se o assaltante de seu próprio castelo fosse ele.
Ela manteve-se durante muito tempo a estudá-lo e sabia já os seus passos, conhecia as voltas da sua capa quando terminava a ronda de lua cheia.
Um dia, cansada de vigiar sem ter que se defender da ocupação do terreno de caça do Senhor de Al Ain que fizera havia muito tempo, muitas luas cheias, lançou o seu grito de guerra e de punhal em mão – que agia sempre só e por si – resolveu fazer-se ao estrado que conduzia ao interior do Castelo. E surpresa viu-o baixar, as correntes ferrugentas em ressalto largarem as conchas onde se anichavam, as portadas escancararem-se e no interior uma arrumação desoladora, sem sobressalto, mas também sem gente lá vivendo.
Tão só o silêncio.
Entrou cautelosa, punhal em riste preparada para defender o seu corpo e alma, atacar quando a isso se visse forçada.
Mas nada, só o silêncio.
E quando se descurou e encontrou uma côdea de pão levando-o à boca ávida, apareceu-lhe aquela figura nocturna perfilada de luz lunar, que a surpreendeu e não atacou. Antes pelo contrário: debaixo da sua cota de malha tirou um pão fresco, grande e loiro que lhe deu em grandes pedaços.
Ela matou a fome.
Mas não matou mais nada que aquele Senhor era o Senhor de Al Ain.
E perguntou-lhe onde estava o exército dele, os seus cavalos, a sua princesa.
O Senhor de Al Ain não lhe deu resposta.
Então, ela afastou-se e percebeu porque razão ele estava sozinho, agrilhoado a si mesmo; porque não se permitia ver o sol em vez da lua; porque razão aquele cheiro de fungo e mofo se propagava por vários hectares de terra de caça.
É que o Castelo do Senhor de Al Ain era o seu próprio silêncio. A sua masmorra.
E nada nem ninguém podia tomar tal fortaleza que o Senhor de Al Ain a ela se tinha rendido há muito, apreciando a si aquele mutismo castrador da vontade de mudar e conquistar além.
Ela saiu. Ele estava perdido dentro de si. Nada podia fazer por ele, pois o Senhor de Al Ain não o queria.
 
 
10 Outubro 2005

A entrevista

 



Pediu que se sentasse, a educação obrigou-a a ficar de pé. Depois tomou assento, olhou as folhas ao contrário e descobriu-lhe o seu perfil. O interlocutor não a olhava, ajeitava os cantos das páginas, arrastava o nome como quem pega num carro que esteve muito tempo parado. Ela não sabía onde pôr as mãos, lembrava sua mãe e a proibição sobre cotovelos em cima da mesa, entalou-as entre pernas e sentiu as virilhas húmidas pelo nervoso que a electrificava, ía dizendo para si não falar, não falar antes de te fazerem a pergunta, abrir os olhos e escutar com o corpo todo, sentir o que vem do outro, as aproximações, o cruzar de braços, aprendera isso. A pergunta apareceu com reticências no final... A mudança, a mais-valia, empregou chavões com cabimento, não se balançou na cadeira, deu espaço, elogiu-se sem ser narcísica, calou-se quando interrompida. Mas as mãos traíam-na a cada espaço, volteavam, os dedos arqueavam-se como asas de pombo no namoro e por mais que a razão as atasse lá voltavam elas a voar independentes de lições bem tomadas. Não quis olhar o relógio, o interlocutor fazía-o por si e pela tarefa a cumprir, mais uma serei eu, não mais uma serei eu, que pensa ele de mim, porque não me vem à boca a frase certa como uma legenda correctamente revista? Colocou a tampa na esferográfica e ela sentiu o fim, ergueu-se, agradeceu e atabalhoada no comando das mãos recebeu dois beijos que não sentiu. Depois a sala agigantou-se na distância entre eles, sentiu-se cuspida para a parede que tinha nas costas, ouviu a resposta ao longe, muito ao longe: demasiado criativa para o que pretendemos, o seu lugar é nas artes, noutro sitio qualquer menos este, temos pena. As penas das mãos estenderam-se de novo e ela voou não sabe para onde, essa lição nunca aprendera.


Abril, 2010

Zé Grande

 


Fechou os olhos e deixou-se ir, abraçada àquele torso vestido de negro e saias como ela. Lembrou-se que talvez fosse uma dádiva, um sinal lá do alto, a bendita, a escolhida, uma outra Maria. Abriu os olhos e viu a figura do Padre novo a afastar-se do seu corpo.
No dia seguinte, o velho Pároco Ramiro voltou, restabelecido das maleitas da psoríase, curado pela visita ao Vaticano.
O novo fora-se. Para todo o sempre.
Nasceu gordo como um bácoro.
A mãe esvaiu-se alagada nos sangues, no esforço de o parir e de implorar ao Criador que a mantivesse pura e casta. A parteira já com cinco para criar, condoeu-se da orfandade daquele bastardo e como boa cristã deu-lhe o peito ainfa farto do seu mais novo.
Ele deitou as mãos cerradas ao monte de carne e agarrou-se à vida.
Nada lhe faltara: Comida, parceiros de brincadeira, trabalho, pancada no lombo, um tecto, um pai e uma mãe. Nunca se inquietara a procurar a origem das suas diferenças: o nariz fino contrastava com o amontoado arrebitado do dos seus irmãos, o cabelo liso e negro destacava-se entre as cabeças cor de palha do resto da familia, mas o que mais se distinguía era a sua desmesurada corpulência e altura no meio dos corpos largos e atarracados do resto da prole.
Ficara Zé, de seu registo civil José Machado, por todos conhecido como Zé Grande.
E como os tempos eram duros, a lavoura o sustento e oito a comer, foi-lhe dado em destino o jus ao nome que ganhara: não havía árvore que o não temesse, lenhador que o ignorasse como valente a manejar a ferramenta e os seus dois metros de altura deram-lhe a lenda de ter sido gerado pela seiva de um eucalipto.
Gostava dessa história que ouvía de si.
Sempre tinha gostado de histórias, especialmente as que sua mãe contava. Também não conhecía outras, que a escola não o tinha merecido. Somava coisas por associação, por abate de troncos, por sobras de pinheiros. E bastava.
Não quería saber de quem o tinha deitado ao mundo, nem tão pouco como morrera: essa era uma história que já lhe havíam soprado mas que nenhum interesse lhe despertava. A sua familia eram os Machado e a sua vida cortar árvores.
Ía o Agosto perto do feriado e o calor apertava cada vez mais.
Aqui e ali chegavam noticias e fumo escuro de labaredas que comíam o verde. Bombeiros, só o nome lhe conhecíam que ali ninguém chegava nem quería saber. Era cada um por si a tratar das suas coisas e com a mão esticada ao Senhor Prior ao Domingo cobrindo o rebanho, tudo se salvaría.
Zé Grande, à soleira da porta falava para dentro, para a mesa onde já todos se havíam acomodado à ceia e onde ele não cabía. Tería que esperar que dois dos seus irmãos terminassem e lhe dessem a vez.
- Pai, com as festas tão perto e o lume a vir por aí, ninguém vai ligar!
O Pai mastigava e não respondía.
- Pai, tou cá com umas ideias...
O pai continuava a mastigar, olhou-o e arrotou.
- Pai, tou capaz amanhã de roçar aquele mato lá perto da Candosa...
O pai olhava o tecto ao vazar o copo de morangueiro.
- Pai, é que a Senhora vai passar pela Candosa e tenho cá um destes medos que se ateie ao manto... e depois vai tudo pró baile, ninguém quer saber senão da bailação!
- Vai lá Zé. Mas cuida que do nosso pedaço não fique restolho, que s'o demo s'apega! Nem sei! Nem sei rapaz! - E o pai tirou o boné com a mão direita e com essa mesma mão rapou na careca orlada de um tufo ruço.
Ergueu-se, espreguiçou-se e deitou abaixo os suspensórios. Recolheu-se aos fundos da casa.
Zé Grande, animado pelo consentimento do pai, saltou como uma mola e de empurrão enxotou dois dos manos, tomando o assento ainda quente do banco corrido.
O lugar do pai ficara vago.
Comeu numa pressa e pediu à mãe que lhe fizesse a cama. Quería dormir depressa para rápido chegar à serra e limpar o caminho por onde aquele andor coberto pelo azul celeste do manto da Senhora da Candosa havería de passar.
A mãe que o conhecía como um dos seus, pois que lhe havía dado do seu leite, esticou uma coberta no chão, e depois uma outra, que mesmo em Agosto, ele há noites de sereno.
Sorría para o seu Zé Grande. Entendía o que lhe ía na alma. E até já magicava numa história inventada sobre a Senhora a aparecer-lhe quando ele andasse no mato ruim. Zé Grande deitou-se nos panos: Não havía tamanho nem espaço de cama que comportasse um homem com dois metros.
Era escuro quando pegou no machado e na foice e se abalou serra acima.
Os olhos dominavam o breu e o barulho dos ralos indicava as bermas farfalhudas de fetos e amoras silvestres. Subía, subía sempre, uma e outra vez pisando o visco que soava a sapo chamando a fêmea. Quando atingiu o cume e a vista alcançou o coreto branco, as estrelas começaram a apagar-se e um fio amarelo riscou nos cabeços dos outros montes.
Tirou a camisa e atou-a à cintura.
Puxou atrás o braço direito armado da foice amolada e num silvo decepou o matagal seco e agreste.
Um pássaro largou como um eco as asas batidas em fuga.
E durante um tempo nenhum ruído se ouvía para além do aço implacável rasgando o ar até ao restolho teimoso que ficara de outros verões. Continuou sem cansaço algum até se deparar com um eucalipto magriço e esticado, bem no meio do rumo da procissão.
Primeiro atónito - que nunca vira ali aquela árvore - e depois desafiado na sua altura - um pouco acima do seu tamanho - largou a foice e de duas mãos pegou no machado, decidido a deitar abaixo aquele poste que se lhe metera ao caminho.
Mas quando dirigía o gume afiado ao tronco esbranquiçado do eucalipto, ouviu um grito e falhou o alvo.
Malfadada machadinha que lhe fugiu ao pé esquerdo e enterrou a lâmina no peito protegido pelo cabedal ensebado da bota. Mas fina do uso, escachou-se numa fenda e deixou o pé desarmado numa ferida esbeiçada.
Caiu por terra e naquele momento nada mais havía que o seu pé, todo ele era um pé, tudo na serra era a dor que sentía.
Agarrou-se ao seu ferimento, os dois metros enrolados como um bicho-de-conta, a garganta aberta para o grito que não saía. Rolou de um lado para o outro e por fim, com nitidez, o céu, já muito azul, uma bola amarela lá no alto. Ficou assim, as lágrimas a salgarem a terra, misturadas com sangue que se empapava nos torrões secos. Viu um rosto debruçado sobre o seu. Uma aura azul celeste emoldurava umas faces brancas e uma boca vermelha repetía senhor, senhor, senhor... Quando acordou estava suado nos panos que lhe servíam de cama. O pai passara perto na carroça do Manel da Rabina e estranhara o silêncio da serra. Deu com ele de olhos fixos no céu e comentou com o companheiro que era o diabo do Padre que havía voltado para o reclamar. Levaram-no de arrasto até à carroça e no meio de bostas para estrume e uma cesta de uva morangueira fizeram o transporte até casa. A mãe coseu-lhe o pé, um ponto cruzado como fazía nos buchos e nas mulheres que paríam. Revezaram-se todos até ele dar acordo de si. Ficou por três dias deitado mas só falava do trabalho inacabado, guardando para si o rosto celeste. Estava certo que era a Senhora da Candosa que o havía visitado. Mas nada dizía. Era véspera do feriado e à noite havía baile. Tudo se abalou à serra, rodearam o coreto para admirar os metais polidos e desafinados, espreitaram a quermesse, conversaram com o Padre. Zé Grande, manco mas feliz, arrastava o seu tamanho aos ressaltos. Deram-lhe uma cadeira perto da roda do baile para que não perdesse o espectáculo. O povo levantava os braços e os rolos de poeirada não incomodavam ninguém que os giros e as voltas eram a coisa mais apetecida desde o ano que passara e de infortúnio já bastava a míngua da vida e o que acontecera a Zé Grande. Foi no meio do folguedo que ele de novo a avistou. Soergueu-se mas ao impulso da sua vontade a dor no pé segurou-o. E o Padre também, que lhe deitou a mão à camisa branca de mangas muito curtas para aquele tamanho todo. - Onde pensas tu que vais? Compostura, meu rapaz! Que aquela menina é a filha do Governador e está aqui para se curar dos pulmões! Que nem te passe pela cabeça olhar para ela! Tu vê lá o que arranjas à tua familia e a nós todos! Que o Sr.Governador Civil tem sido muito amigo das gentes da Candosa! Que o Senhor o proteja por muitos e bons anos! - e elevava o indicador à testa e ao céu. Mas a menina doente dos pulmões não o estava dos olhos e era impossível não mirar obssessivamente aquele homem tão grande e tão pequeno como o vira enrolado no chão. Recordou o seu grito dias antes, ao vê-lo enorme a derrubar mato e a árvore onde acabara de fazer uma promessa, como lera num romance de amor às escondidas. E como depois sentira um medo a tomar-lhe o corpo quando vira tanto sangue e o homem parecía ter morrido. Fugira a bom correr, as faces afoguearam-se-lhe e a enfermeira que lhe perdera a trela serra abaixo ficara encantada com aquele rubor. E o seu pai, o Sr. Governador Civil também ficaría. Zé Grande continuava de pé. Olhavam um para o outro. Tudo à volta tinha desaparecido. Juntaram as mãos e dançaram. Os outros afastaram-se mas os acordes eram um veneno que lhes dava alegria e depressa esqueceram o par. Bailaram muito e Zé Grande sentía o pé a crescer, uma baba quente a arder pela perna acima. Levou-a até ao assento e murmurou que já voltaría. O barulho era muito, os risos ecoavam a serra e ela não conseguía ouvir as palavras dele. Zé Grande disparou serra baixo, uma correría feita a uma perna que tinha de poupar o pé aleijado. Já nem lhe doía. Só vía o rosto da menina, o manto azul celeste da Senhora da Candosa a enfeitá-la. Atirou com a porta de casa para trás. Ninguém. Descalçou o sapato e verteu o sangue que se havía acomodado numa pasta de terra. Não reconheceu o pé, nem tão pouco os pontos cruzados dados sabiamente pela mãe. Procurou a caixa de costura e enfiou a linha grossa e negra dos buchos na maior agulha que encontrou. Bebeu do medronho do pai, goladas fartas que lhe escorreram até ao peito e afastaram o cheiro de suor. Cerrou os dentes e enterrou a agulha com força, unindo as duas metades da carne, espremidas entre sangue e uns veios brancos que teimosamente queríam fugir ao ponto. Acabou por vazar a aguardente. Enrolou um pano ao pé e com força ajeitou o trambolho para dentro do sapato. Bateu a porta e correu serra acima. Não há árvore que o não tema nem lenhador que não lhe louve a coragem. O Zé Grande salvou a serra da Candosa, que no dia feriado apareceu um fogo que não passou de fogaréu e todos o combateram sem problemas. Graças à limpeza que o Zé Grande fizera dias antes. Todos lutaram contra o lume menos o  Grande que ficou retido em casa, doente e a delirar. Agora é coxo. Até dá piedade. É que naquela noite na véspera da procissão, e do fogo e do feriado, quando o Zé Grande atingiu de novo a serra, já a festa havía terminado. E a menina havía sido levada pelo Sr. Governador Civil. Para todo o sempre.
 
 
Janeiro 2007

Como pintar uma assoalhada de 20m2 em apenas 3 meses

 




MÊS UM
 
 
Decidi mudar a minha vida e como tal, nada melhor do que começar pela nossa própria casa.
Como a coisa vai mais ou menos ( mal) e não dá para contratar uma decoradora nem comprar uns tarecos novos, empenhei-me sem qualquer receio, na tarefa de pintar estas paredes esmurradas e com algumas brechas e marca de sapatos atirados ao vácuo em finais de dia, alterando o espaço envolvente para uma harmonia de tons pastel - que acho eu! - vão muito bem com a Primavera que se tem feito sentir.
Meti pés a caminho e fui à procura das tintas e adjacente material mas, o funcionário que me atendeu era um vendedor nato e quando saí da loja senti o peso nos braços não só das latas de tinta e rolos mas ainda, de trinchas de várias polegadas, um artefacto estranhíssimo que é destinado aos cantos, fita crepe auto-colante para protecção de sancas, caixilharias e afins, um plástico do tamanho de uma tenda para cobrir o chão, diluente especifico de limpeza e massa para reparação de fissuras e competentes espátulas contrapondo-se num alivío de carteira tão só aligeirado pela sensação de que de facto, serei um verdadeiro profissional.
Chegado a casa cheio de ânimo, arranquei os quadros e afastei a mobilia para o centro da sala. Bolas! Isto afinal é enorme! Nunca me tinha apercebido como esta assoalhada tinha tanto espaço! Meti mãos à obra, ou melhor dizendo, à fita crepe, mas esta porcaria não é tão fácil de colar como parecía pois pega-se a tudo menos às tomadas que quero isolar e no rodapé trouxe umas bolas de cotão agarrado, que estavam escondidas pelos móveis; e agora é que não cola mesmo!
Acabei por conseguir tirar a tampa à lata de tinta com uma faca que ficou amarrecada e resultou nalguns golpes na mão esquerda. O vendedor tinha razão: as tintas actuais não cheiram a tinta. Cheiram a maçã. A maçã verde misturada com cheiro de tinta. Misturei no tabuleiro uma parte de branco com duas de amarelo, mas o resultado final não foi famoso...o que eu quería era um tom de amêndoa mas saiu-me mais para o banana. Talvez um pouco mais de branco...mas estas artes de fabricar cores têm o seu quê e o peso das latas e o esforço que já havía gasto no transporte e arrasto de móveis deixou-me a mão trémula e nada acertada para o meu objectivo final, com muitos pingos a mancharem o soalho (devería já ter posto o plástico, então?!). Mas convenci-me que depois de aplicada talvez a cor se mostrasse mais a meu contento e determinado, atirei-me à parede riscando a amarelado o que agora me parecía estar muito branco.
De repente, lembrei que não tinha tapado as rachas nem restaurado aquela quina esboroada. Tarde de mais! Já lá havía passado com o rolo. Larguei tudo e enquanto agoniado pelo cheiro do diluente a dissolver o cheiro da maçã, pensei que no dia seguinte havería de iniciar a minha obra pela reparação das fissuras da parede e numa segunda camada de tinta disfarçaría o meu esquecimento.
Além disso, estava cansado.
No dia seguinte, já não recordo porquê não tive qualquer hipótese de voltar aos trabalhos.
Aliás, só passados cinco dias é que peguei de novo no rolo. Comecei pela parede contrária onde tinha iniciado.
No final dessa jornada e ao tentar esticar-me para descontraír os musculos elevei os olhos ao tecto e constatei que devería ter sido por aí que devería ter começado a pintura. Fiquei quase suspenso por um fio invisivel a mirar as pequeninas teias de aranha presas no candeeiro. Esmoreci. Lavei o material com o diluente que acabou por salpicar para o meu olho direito e queimado e semi-cego larguei aqueles objectos mortíferos no lavatório, proferindo casa fora raios e caveiras.
Fui obrigado a supender a minha tarefa até recuperar a noção de distância.
Quando peguei no rolo estava seco como um bacalhau e tal como o fiel amigo deixei-o a demolhar. Durante mais cinco dias.
Afinal a tinta era facilmente removida com água; já que a tinta era da dita.
Maldito vendedor!
Exausto ainda sem ter pegado na trincha, descobri que não tinha um escadote alto o suficiente para atingir o tecto.
Esperei pelo fim do mês e do dia de pagamento para poder adquiri-lo.
 
 
MÊS DOIS
 
 
Resolvi pintar o tecto a branco.
O problema foi conseguir envolver a campanula do candeeiro com a fita crepe auto-colante ao mesmo tempo que me equilibrava no topo do escadote.
No intuito de dar uma boa cobertura na primeira demão, embebi demasiado o rolo e o excesso claro, escorreu pelo meu braço até ao cotovelo, depois para o chão em pingas grossas. Algumas placas de tinta foram alojar-se no interior do abatjour em forma de chapéu de chuva aberto. Não sei bem como algum dia irei conseguir limpar isto...a menos que desmonte o candeeiro.
Tive fortes dores no pescoço. E no ombro direito. E também na mão, quase não conseguía fazer os movimentos de abrir e fechar. Duas bolhas na palma direita ardíam-me e provocavam-me uma raiva mal contida contra mim mesmo.
Nunca me ajeitei a fazer fosse o que fosse à esquerda; ainda tentei, mas o rolo pareceu ter ganho asas e vontade própria, soltando-se da minha mão inútil e arremessando-se violento às vitrines do móvel da sala. Um rasto lamentoso a branco deixou uma marca que até hoje permanece vincada na madeira.
Achei que devería dar a mim mesmo uns dias de folga e de uma necessária recuperação aos meus musculos retesados e inchados. Não sabía bem quais, pois todo o corpo me doía.
Num final de dia de trabalho entrei em casa com uma vitalidade capaz de demolir qualquer contrariedade: olhei a parede com um borrão amarelado em que me tinha iniciado e ignorando a cor que entretanto já havía queimado um pouco pelos raios de sol que atravessavam a sala, pintei-a audacioso de amarelo puro sem a desdobrar a branco.
Terminei a minha obra em apenas três horas e meia.
Senti-me feliz para logo a seguir levar um baque. Então não é que a outra parede estava a banana e esta parecía um prato de caril?!
Soltei um urro, atirei com o rolo para dentro do lavatório e fui encontrar-me com dois amigos meus que estavam na cervejaria da esquina.
Riram-se das manchas na minha roupa e de uma grossa rodela amarela que havía caído na minha calva, mesmo no cocoruto. Confessei-lhes o meu desgosto pela inaptidão de mãos e esmero que a minha personalidade havía revelado.
Um deles aconselhou-me "para eu me deixar disso" e falou-me do seu cunhado que era um homem muito jeitoso para este tipo de habilidades e que levava muito em conta. Passou-me o numero de contacto dele para um guardanapo de papel e mandou vir mais três finos.
Recordo-me que nos dias seguintes fez um calor desabitual para aquela altura do ano. Só apetecía andar na rua. Na verdade, não havíam mesmo condições para pintar: a tinta tinha engrossado e formado carolos grumosos, o rolo já tinha ido para o lixo pois da última vez não tinha sido limpo e nem mesma a técnica da demolhação o tinha salvo.
Resolvi dar um tempo a mim mesmo. Que diabos! Afinal não tinha ninguém a obrigar-me a pintar ou mesmo prazos marcados para terminar a tarefa!
Fui para a praia e apanhei um valente escaldão.
No resto desse mês não consegui - embora o quisesse, de verdade! - voltar a pintar.
 
 
MÊS TRÊS
 
 
Conheci uma miúda lindíssima na praia. Pensei em levá-la lá a casa mas nas condições em que a sala se apresentava era o mesmo que arruinar a minha reputação. E as miúdas ligam muito a estas coisas da arrumação. Fui adiando o quanto poude uma promessa minha de lhe fazer um jantar romântico à luz das velas, mas a eminência dela se desinteressar de vez da minha pessoa, forneceu-me a coragem e determinação para pegar na trincha. Sim, que já não havía rolo.
Fui comprar mais tinta, ignorando de vez os amarelos.
Branco, tudo branco.
Fui a um supermercado e eu mesmo adquiri sem fantasias de vendedor, uma lata de 30lts.
Com afinco e esmero molhei os pelos negros da trincha larga e fi-la deslizar por cima da cor banana, um branco brilhante e puro, acetinado. Lindo. Voltei a embeber a trincha daquela nívea cor e repassei: mas desta vez não deslizava, enrugava-se, deixando pequenos riscos dos desenhos dos pelos, emergindo aquele tom amarelado.
Olhei o balde de tinta, desconfiado: era esmalte, não tinta de água.
Comecei a suar.
E a procurar desesperadamente pelo guardanapo de papel onde o meu amigo escrevera o número de telefone do seu cunhado.
Liguei-lhe mas o homem devía ser mesmo bom, pois já tinha marcações para os próximos quinze dias; é que ele não fazía só aquilo, ele tinha uma profissão, era bancário.
Tentei negociar mas ele mostrou-se irredutível e não tive outro remédio senão aguentar e fazer-me de doente, adiando mais uma vez o tal jantar com a miúda que conhecera na praia.
No final do mês o homem bateu-me à porta às 8 da manhã, equipado com material próprio e para desprezo do meu.
Raspou os bocados de tinta onde havía brechas e betumou-os à perfeição; usou o nível e assobiou irritantemente enquanto colava uma fita crepe com uma precisão sem qualquer desvio ou engelha. Pintou e não pingou, e no final de janelas escancaradas, ainda me ajudou a colocar os móveis nos devidos sitios.
Paguei, senti-me frustrado pela simplicidade da tarefa.
Mas satisfeito, porque finalmente me havía livrado do que parecía assemelhar-se à construção do Convento de Mafra.
Comprei o jantar a uma empresa de catering e com as velas acesas, conquistei a miúda da praia.
Foi então que ela me disse:
- Paredes brancas?! Parece um hospital...não gostas de amarelo-sol?

 
(C.G.-21/05/2006)
 

A inundação

 

 
 
 
Ainda de olhos fechados, cabeça comprimida no conforto da almofada o sentido auditivo fez soar um alarme, fraco, que o sono era muito e talvez sonhasse. Mas permanecia aquele ruidozinho idêntico à chuva, incomodativo, constante que não deixava aquietar-se. Num rompante atirou a coberta para trás e apalpando o escuro da noite foi-se levando pelo instinto, de mão esticada para as esquinas da casa e das portas entreabertas de encontro ao som cada vez mais perceptível de água a cair.
Mas antes de compreender o que se passava, sentiu um frio nos pés descalços apenas aconchegados pelo amontoado das calças do pijama riscado descaídas da cintura: o chão brilhava no breu.
Entrou de rompante na casa de banho e aí, percebeu que havia água no chão. De quanta altura, perguntou-se imediatamente, agitando a mão na busca do interruptor para que rápido se fizesse luz às suas interrogações. E mal deu com o pequeno botão que fazia dia na escuridão sentiu uma mordidela nos dedos que lhe devoraram igualmente o braço, acompanhado de um clarão azul e um ruído rápido e violento semelhante à electrocussão de uma mosca. Abanou o braço e ajeitou-o ao peito, proferindo exclamação tão expressiva como o esticão que acabara de tomar.
Agora os olhos dimensionados ao escuro apercebiam o brilho das torneiras, o som de cascata despenhando de um alto que não atingia. Arrastou os pés pelo riacho que corria vivo corredor fora, sala dentro, embebia os tapetes turcos comprados em segunda mão, experimentando em cada interruptor a força da electricidade combinada com o elemento líquido. Uma vela perfumada a canela que enfeitava uma mesa de canto foi o único archote que conseguiu alumiar, deparando-se com um Titanic prestes a afundar.
Perdido sem saber o que fazer primeiro, se fechar a água, desligar o quadro eléctrico ou gritar por socorro, arrastava os almofadões e alguns livros que haviam sido esquecidos no chão, encostando-os ao tronco, tropeçando nas calças de pijama que atrapalhadas lhe pesavam sobre os peitos dos pés frios.
Procurou o telefone e não o encontrou mas sentiu-se satisfeito por ter achado um cigarro completamente seco que acendeu na vela perfumada de canela e que pingava fervorosa nas costas da mão uma estearina macia e adocicada.
Um pingo mais quente derramou entre dois dedos e a dor tão intensa obrigou-o a largar a vela que de imediato se apegou a um cortinado de nylon trazendo mais claridade à assoalhada. Foi em pânico que soprou a cortina mas num segundo o pano encarquilhou e atiçou-se à estante de pinho dobrada pelo peso dos livros adquiridos num alfarrabista seu conhecido. Num rasgo de  brilhantismo despiu as calças de pijama molhadas e combateu heroicamente o fogo empunhando como um gladiador, aquela arma riscada e mole. E era tal a sua determinação em fazer peito aquele fogaréu que na investida bateu com as canelas na madeira do sofá, fazendo-o tropeçar e estirar-se desamparado para a estante agora manchada a negro da labareda impiedosa.
Deve ter batido com a cabeça, pois perdeu os sentidos.
Quando recobrou estava na sua cama, a coberta tombada no chão, as calças de pijama riscado embrulhavam-se numa perna a outra desnuda, o candeeiro de presença habitualmente na mesinha de cabeceira jazia no chão e o colchão, apresentava uma mancha desoladora e molhada onde ele se aninhava com frio. O coração disparado latejava uma veia forte no pescoço e de imediato não conseguiu distinguir o som da água e o dos seus batimentos cardíacos.
Foi então que se apercebeu que a força da natureza tinha rompido o dique da bexiga a meio de tal pesadelo.
Levou as mãos ao rosto de barba por desfazer, riu-se e declinou um verbo vicentino em tempo reflexivo.
 
9 de Março de 2006
 

Apanha-me!

 
 



Cheirava a terra molhada, suor, bosta de cavalo e aquele envinagrado do sangue que sempre parece deixar um rasto nas narinas mesmo que se fuja para longe.
Dói-lhe o braço, o ombro, a mão e nem mesmo o calo de anos de treino e a protecção de couro fino para que não perca a sensibilidade do fio, após tantas horas de disparo, consegue evitar o corte junto ao encaixe das articulações do dedo médio. Mas não pára, não baixa os braços, não se rende, incentiva os outros.
Já passaram cem anos e hoje é só mais um dia e não será neste que se vai entregar. Os gemidos e os gritos da dor lenta da morte não o afligem, habituou-se a eles, são os sons de campo de batalha, tão normais como o cantar da cotovia na sua aldeia. Aqui, em terra estranha e inimiga só existem estes cantares e até destes precisa ouvi-los para não esquecer, para sentir a raiva que lhe dá o poder de erguer o arco do seu tamanho, mirá-lo na extensão plena da sua corda fina e derrubar mais um francês acobardado naquela moita.
Fechou o olho esquerdo, o cotovelo direito ponteou elevando-se à altura do ombro, sente o fio tenso como uma corda da harpa de um bardo raspar-lhe o queixo, o nariz, a mão firme na direita do seu braço. Solta e ainda ouve o silvo da flecha cortar o ar, os gritos, o relinchar. Não sabe se acertou no alvo mirado, sentiu uma pancada na nuca e viu muito rápido junto à cara o verde revolto e espezinhado numa poça de sangue, depois tudo escuro.
Ouve sumido um linguajar que não entende, o chão a rodar, a cabeça próximo dos pés, cheira a fezes e urina, sangue e carne podre, tem terra na boca, nos olhos, sacode a cabeça e cospe. Está sentado no chão com mais companheiros, todos amarrados, foram apanhados, agita-se no frenesim da besta caçada e procura desesperado libertar-se do cativeiro, pedem-lhe os outros que seja digno e honrado nesta hora, que muitos sabem o que acontece aos arqueiros aprisionados. Ele também sabe mas não quer ser mais um.
O companheiro do seu lado é levado pelos cabelos até um tronco aparado e vermelho. Assentam-lhe a mão direita recolhendo os dedos apenas sobrando o médio. Resigna-se, cerra os dentes, sabe que chegou a sua hora e invoca o rei. O som seco do carrasco a separar o dedo poderoso cala por uns segundos o tempo. Empilham-se dedos roxos e cobertos de insectos ao lado do tronco. O arqueiro desfalecido é arrastado para um canto.
Chegou a sua vez, retiram-lhe as cordas para libertar o braço na amputação que o desonrará da sua linhagem. Chuta, esperneia, morde a mão respingada de sangue inglês do carrasco, cabeceia o seu opressor, urra e na surpresa de todos apanha a oportunidade e corre, corre, corre muito que a morte vem lá.
Sente-os no seu encalce, cheira-os mas ri como um louco e antes de desaparecer no nevoeiro que entretanto tombara, volta-se para trás e grita APANHA-ME! espetando bem alto o dedo médio calejado. Mas inteiro.


As amigas

 
 



Engoliu. Não havía alimento para descer, nem água, tão pouco cuspo que tudo lhe havía secado no instante e até as lágrimas que sentía a arder não vinham, só o queimado a incendiar desde a boca do estomago até aos lábios apertados que não tinham perguntas a fazer perante o que acabara de ouvir. Depois de se ouvir as palavras que ouvira não há nada a dizer, não há nada a dizer, escutava na sua cabeça e rasgavam-lhe gritos mudos por dentro na interrogação, quería fugir e sentía-se pálida nos pés, nas mãos, no rosto e tudo lhe incendiava porém.
Engoliu as palavras que ouviu. Caíram como pedras para dentro de um estomago oco, ofendendo a alma.
Baixou os olhos, sentiu vergonha de si e não sabía porquê.
 
Às vezes achava-a triste e intrigava-se com tão profunda melancolia, uma quase queda para dentro de si que a fazía desaparecer, engolida como se fosse um chão de si mesma a abrir-se em fenda que depois se quisesse cerrar como sepultura. Tinha receio de a abordar nesse estado por lhe parecer tão delicada. De outras, os olhos parecíam chamá-la a pedir ajuda e ela não estava certa se era pedido de socorro ou apenas o mote para iniciarem conversa de circunstância.
Acabaram a falar por intermédio de terceiros e ao final de um par de horas, a conversa deslizava como se uma necessidade de ambas as tivesse posto naquela posição por uma força maior.
Não se tornaram inseparáveis, mas amiúde a procura aproximava o diálogo intimista e revelador e um dia ela perguntou-lhe porque era ela uma mulher tão triste.
Não houve resposta.
As lágrimas rebolavam pela face, pelo pescoço, pela camisola, era um rio silencioso imparável.
A outra não sabía o que fazer. Muda, deu-lhe a mão e assim se mantiveram até o choro acalmar e por fim se esgotar num silêncio seco, com uma despedida às pressas sem olhar.
E por cada vez que o assunto era aflorado vinham as lágrimas, a mão já não chegava para o consolo porque já o sabía e escondía-se num cruzar de braços, e as palavras começaram a fazer perguntas sobre tanta água, tanta amargura, tanta morte no olhar.
Era o amor e o desamor.
Amava um homem e estava presa a um outro do qual não se podía libertar sob pena deste se condenar a um destino que lhe cobraría a vida inteira ensombrando-lhe o coração, impedindo-lhe no fundo, de amar.
E a verdade, não conta?
Não, não conta, o que contava era o que se vía e o que se vía não era o que ela mostrava de verdade, porque lágrimas e dor e amor, só com ela se permitia libertar, a mais ninguém, nem ao amor, prefería fingir que tudo estava bem a pensar num gesto desesperado, e a quem estava presa, mentía igualmente, fazía de conta que estava como sempre tinha sido.
Até quando? Uma vida dupla até quando? Um dia iria olhar para o espelho e havería de querer escolher ou então não saber qual preferir ou pior nenhuma aceitar, liberdade, liberdade no coração e na alma, mais lágrimas até haverem mares que afoguem homens e nenhum se salve para salvar-te...
 
As quatro estações rodaram e as lágrimas não fizeram nem um ribeiro, vieram sorrisos, gargalhadas, palmas. Estava bonita, um semblante brilhante e iluminado, faladora, parecía ter rompido de uma pele velha apertada para surgir viçosa.
A amiga chegou-se perto e sorriu-lhe, ela correspondeu. Perguntou-lhe como estava, como ía a sua vida, que a vía bem e feliz e ela respondeu que não a quería metida nas suas coisas, não eram do seu rosário, que não se envolvesse em assuntos que não lhe dizíam respeito.
Ela engoliu.
Sentiu vergonha de si, mas da amiga também.
 
 
 

O concerto

 




Mal entrou sentiu o ferimento das luzes artificiais nos olhos e a pancada de calor contra o casaco no peito a colar-se-lhe. O passeio a pé desde casa até ao teatro soubera-lhe bem, estava fresco, trauteara alguns trechos que conhecía da autoria dos compositores que iría agora escutar, um serão planeado com antecedência, decerto casa esgotada, sentía que o fim-de-semana começara bem.
 
Deu alguns passos, usou o programa para se abanar disfarçadamente, observou as gentes no átrio, o seu comportamento, reprovou intimamente um pequeno grupo que falava alto e as senhoras trajavam de longo, nos braços ramos de flores, rosas brancas notou. Procurou no programa pelo nome de alguma solista que lhe tivesse escapado, mas não, não havíam solistas nem outras figuras de destaque, para quê as rosas brancas, os vestidos de cetim até aos pés se não é noite de estreia.
O pequeno grupo ría muito e muito alto, com a cabeça para trás, falavam uma língua estrangeira com muitos menhês e proquenhês e ele não entendía outros sons que não fossem esses, que raio, pensou.
 
Abriram-se as portas, ele esqueceu o grupo, entregou o seu orgulhoso bilhete e foi levado ao seu lugar: Fila B, lugar 12. Mesmo no meio e à frente.
Conseguía escutar os músicos a aquecerem os instrumentos, aquele zumbido caracteristico das cordas a serem dedilhadas, afiadas pelo arco e esticadas em sons altos e baixos criando uma espécie de cacofonia.
Olhou o relógio, estavam atrasados vinte minutos, desligou o telemóvel, não tinha mensagens, acomodou o traseiro no fofo da poltrona e traçou os pés preparado para receber aquele banho espiritual.
 
O primeiro músico a entrar foi o contrabaixo.
E na fila atrás da sua o grupo barulhento que na meia-claridade apalpava os assentos, tropeçava nos vestidos e rangía o celofane do embrulho das flores. Escutou-se um shiu pela sala à medida que os restantes músicos entravam em palco e a platéia batía palmas. Ele irritado rodou a cabeça e fez cara feia mas a única coisa que recebeu foi um joelhada na orelha direita de uma das senhoras que prontamente lhe apresentou um proquenhês repetidamente.
 
O maestro apareceu todo de cinzento e de braços abertos curvando-se ligeiramente, mais uma ovação.
 
O concerto começou.
 
Joly Braga Santos abriu a noite. Algumas tosses veladas pontuavam a sala, depois o toque insistente de um telemóvel que ficara esquecido num bolso, mas o que o perturbava mesmo era o constante barulhinho nas suas costas, sussurrado, entrecortado pelo ruído plástico dos ramos de flores a serem tocados e de quando em quando um estremeção, uma espécie de chuto que recebía no encosto do seu lugar e lhe disparava o coração e a concentração.
O maestro tinha uma risca de suor que lhe escurecía a gola e a costura do meio da casaca dando um efeito borboleta, e à medida que conduzía a orquestra aguardava-se que levantasse voo a qualquer instante, o que mais burburinho e ânimo decerto suscitou na fila C pois as palmas arderam a par com os Brrrravos muito arrastados e martelados nos erres. Ele nem aplaudiu, sentia-se esmagado. E ao observar o maestro a dirigir um olhar de agradecimento muito especial às senhoras atrás de si no gesto largo da mão e na vénia dobradissima exibindo o lustro da calva, tudo lhe pareceu claro: Eram todos do mesmo sitio, estava visto.
 
Procurou o programa, correu as letras com a ponta do dedo na busca do nome do maestro mas a pouca luz não lhe trouxe nenhum esclarecimento. A partir daí, já não conseguía ouvir mais nada, tudo lhe era desafinado e terrível. Pensou em saír mas o segundo compositor estava ao rubro e a platéia parecía completamente concentrada na sua figura. Levantar-se, recortar-se no contra-luz do palco era o mesmo que humilhar-se, sería o mesmo que desrespeitar toda a orquestra.
 
Afundou-se no assento. O estomago rugiu-lhe. O jantar leve a pensar na ceia após o concerto e depois a caminhada, já se tinha ido. Pensava em Mozart e em pão com manteiga, num requiem e em largas fatias de pão alentejano com lascas de manteiga.
 
Tchaikovsky enchía a sala e por essa altura o ar condicionado foi ligado ao máximo. Sentía frio. Desejava desesperadamente pelo intervalo para partir e esquecer tão malfadada noite. Mas as peças parecíam intermináveis e o desejo de pão com manteiga um crescendo que lhe trouxe água na boca, inquietação e ansiedade dificeis de suportar.
 
Farto do desassossego atrás de si virou-se e de dedo esticado fez o sinal de silêncio acompanhado de um sht curto mas sonoro.
A fila atrás de si ergueu-se de uma só vez.
Ele agachou-se e protegeu a cabeça.
A ovação fez-se sentir, os bravos replicados, toda a sala de pé, encore pedíam, os músicos de pé igualmente, o maestro como Cristo-Rei, os estrangeiros junto ao palco a entregar os ramos, as mãos juntas numa adoração.
 
As luzes acenderam-se, a sala vazou.
 
Vieram buscá-lo e perguntaram se se sentía bem. Um pouco fraco disse, a limpar a testa. Levaram-no até à cozinha do restaurante, serviram-lhe chá para a indisposição. Ele pediu um pouco de pão para acompanhar, se não fosse muito trabalho. De todo. Pão com manteiga, se faz favor.
 
 
 

Estória de uma árvore

 
 
 
 



Olharam-no como se fosse uma aparição.
 
Ficara-lhe o gesto dos tempos de seminarista, dedos entrelaçados no fervor da oração em que se prendia o terço, a concentração e a essência numa concha, sinal pequeno do que é o homem perante a obra maior, a humildade a caber num pedaço de mãos.
Tinha dedos delgados e compridos, punhos fortes e ainda assim de uma elegância que não suspeitava que suportasse com tal leveza as pilhas de livros, que como ajudante do padre bibliotecário, tivesse de carregar.
Era ágil mas delicado, rápido mas harmonioso, cumpridor sem ser subserviente, gostavam dele e ele parecia não desgostar de ninguém.
 
Era um bom menino no seminário, um bom filho em casa.
Mas chegada a hora dos votos e apesar de tantos anos entre paredes de silêncio, devoção a um só, estudo, o caminho da castidade, o exame final deu-lhe um chumbo e aprovado mesmo, só teve a vida comum de um homem como os outros. 
 
Talvez que olhos mais atentos lhe tivessem atinado que a trama dos dedos se forçava e por vezes até tremia, que o terço balançava ao invés de ser rodado nas suas contas, e o gesto de fechar as mãos ao corpo mais se assemelhava a um tique do que a um acto de pura fé sentida.
Mas ninguém o podia acusar da sua manifesta diligência na biblioteca e desvelo tantos com que tratava os livros, sempre a arrumar, arquivar, a trazer e buscar.
Onde o queriam achar fora das obrigações de reza era lá, logo dispunha os dedos naquele entrelaçado côncavo, de pé se estava sentado em sinal de respeito aos que chegavam, partindo em silêncio após, para não perturbar os que aí permaneciam no estudo.
 
Ficou no seminário por muito tempo, homem feito, de barba comprida e tal era boa a sua alma que nenhum padre teve a condição de o mandar embora. De casa já nada havia, nem paredes nem memória, por isso não tinha saudades nem a dor dessa ausência, apenas uma concha de mãos a recordar que tinha nascido fora daquele sitio onde lhe parecera ter estado por toda a sua vida.
 
Certo dia não deram com ele, procuraram até à exaustão, gritos para cá e para lá, tocaram o sino mas nada, ainda foram ao que restara da casa de infância mas o mesmo de zero, esfumara-se como se nunca houvera existido. Repetiram a busca no dia seguinte e no outro chamaram a Guarda, e ainda por mais dias e depois cada vez mais espaçado diziam o seu nome, e depois já nada diziam, só pensavam ou lembravam-no nas graças da oração, mas não todos, só o padre bibliotecário que já estava muito muito velho e precisava mesmo dele.
 
Passou-se um ano, mais um par deles e ainda um outro.
 
Quando o padre bibliotecário foi a enterrar, descobriram entre as suas coisas, um velho livro em latim, escrito e desenhado à mão, sem denúncia de autor, intitulado  "Árvore com vidas". Era belíssimo, com ilustrações a carmim, açafrão e ouro e minuciosamente descritivo quanto à plantação de uma árvore com propriedades extraordinárias que confería a imortalidade àqueles que dela nascessem como seus frutos. Não que os comessem, mas dela brotassem.
O livro foi imediatamente levado e nunca mais foi visto.
 
Quando a Primavera veio e as primeiras flores rebentaram, rosadas, pálidas do frio mas açucaradas do morno que já ía acontecendo, a árvore junto à sepultura do padre bibliotecário rachou o seu tronco e exibiu o seminarista desaparecido havía uns anos.
Vinha de sorriso nos lábios, a barba comprida, os dedos entrelaçados no fervor de uma oração.
 
Vinha nú.
 
Talvez que olhos mais atentos tivessem apercebido que a concha composta das mãos, escondía as notas copiadas para as palmas dia após dia, ano após ano, de uma tradução laboriosa e complexa do latim arcaico de um certo livro achado à sorte, e que ter-se enterrado a si mesmo sob as raízes de uma árvore significava quiçá um suicídio.
 
Mas o que ele quería era mais tempo para aprender e isso só a árvore lhe podía dar.





A escadaria









Para a maioria era apenas caminho de atalho, para outros sitio de evitar, para uns quantos o local ideal para os beijos roubados e outros sentires mais afoitos, para os mais velhos uma cruz penosa quer de subir quer a tormenta de a descer, mas para ela quer houvesse sol ou frio, luz de dia ou candeeiro de lampada partida a alumiar coisa nenhuma, sempre lhe acharía novidade e beleza que a fizesse voltar.

Talvez que o gosto lhe tivesse aparecido ainda na barriga da mãe, que ao sacudir uma abelha insistente e perseguidora numa tarde de Verão, aos rebolões havía descido os 217 degraus, e no seu remate se havía erguido nas pernas erecta e rija para grande espanto de todos quantos acorreram escadaria abaixo, tentando travar-lhe a descida ensandecida. E nem um arranhão sofrera. Só depois uma abelha veio e a picou na orelha, o que lhe fez soltar um berro enorme.

Mas pode a causa ter sido a tia, que tinha uma cadela de porte grande como um cavalo e a punha de montaria na Negra quando ainda era criança de perna curta. Quando subíam a escadaría, a tia cantava, era tudo inventado, sons da garganta como pedidos de socorro, sem palavras, mas muito bonito, tudo se calava ao redor, nem os pássaros bulíam com a voz dela. Quando descíam, a tia assobiava e era tudo no mesmo tom fervoroso de quem pede uma benção. E ela montada na cadela Negra, agarrada aos pelos do pescoço, certa da segurança de chegar ao destino.

Depois, havía aquela prima muito alta com corpo de homem, cara de homem e olhos tão bonitos que quase não se conseguía olhar para eles de vergonha. Tinha muita força. Metía muito medo a quase toda a gente, incluíndo a ela. Mas nas tardes de muito calor, quando os joelhos parecíam custar a dobrar para subir os degraus de pedra já gasta pelo tempo, o medo ía-se e sabía tão bem ser do tamanho das árvores: A prima içava-a para os seus ombros e conquistava o íngreme com uma facilidade de um gigante perto do céu.

Sempre que se sentava nos degraus da escadaria recordava cada uma destas mulheres, tentava apurar o que cada uma delas havía contribuído de seu para o gosto daquele lugar. Não chegava a conclusão nenhuma sobre qual mais a tinha influenciado. Até pensar na sua avó, nas pequenas histórias que a sua avó recitava, de umas vezes na escadaria, de outras longe dela mas sempre a seu propósito, revelações que nem sempre entendera na altura pela crueza da idade, mas também pelo susto que por vezes tais palavras arrastavam no entendimento quando maior, se percebía o peso da herança do conhecimento a quem passava.

Aos 17 anos começou a passar para o papel tudo o que sabía sobre a escadaria. Tudo o que havía ouvido transformou em letras e transferiu para papéis com medo que o tempo lhe apagasse as palavras da memória.
Foi então que descobriu, que nada havía sido feito. Que tudo o que havía escrito eram apenas reproduções de coisas de outros. Melhor, de outras, não havía homens nestes relatos, só coisas no feminino, algo invulgar, pois que para haver mais de fêmea logicamente terá de haver lugar ao macho.
Pesquisou e em tempo algum, descobriu nome, referência, sombra que fosse, de seu pai, avô, tio ou primo, nem afastados. E por onde andara ela todos estes anos que nunca se perguntara de onde viera, onde estavam os homens da familia, para onde partira o seu pai?

Buscou junto da avó e esta falou-lhe da escadaria, que a resposta era a escadaria, mas o enigma não a satisfez e na insistência tanto a aborreceu que a velha agarrou-lhe a mão e ofereceu-lhe uma chave. Da chave, abriu-se uma caixa e da caixa saíram papéis. E esses papéis eram tão iguais aos que ela já havía escrito para que a memória da vida não a atraiçoasse com a memória dos sonhos, que ela pensou que estava louca e quis fugir para bem longe dali.

Correu muito, mesmo muito e foi dar ao último degrau da escadaria.

Sentou-se ofegante. O dia deslizava devagar, um e outro par de namorados de mão dada passava por ela sem a notar, um cheiro morno e adoçicado pousava à espera do fecho da luz.
De costas, junto às pedras do muro que se escondíam para lá dos fetos que dormíam à neblina do serrado, foi fazendo canudos muito apertados das folhas que escrevera durantes anos e um a um, escondeu-os nessa cama fria, húmida e rochosa. Fez desaparecer as folhas por cada fresta de pedra que conseguiu passar, as que restaram enfiou no último degrau da escadaria, a custo, parecía-lhe entupido, cheio, pleno e ao invés de o preencher, acabou por o espreitar e a escarafunchar e a descobrir folhas e fotografias.

Tombou a noite no repente como uma queda e assim sentiu na costas qualquer coisa que lhe havía tocado, caiu-lhe das mãos as fotografias de homens e também algumas cartas que começavam por minha querida e outros papéis com datas muito antigas que falavam da construção de uma escada e de uma contenda por causa de um curso de água e uma disputa entre vizinhos.





Fotografia oferecida por Eduardo Jorge Silva

A culpa

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Pé ante pé, devagar, primeiro a pousar o calcanhar e só depois a restante sola, fez-se chegar à porta. Quase conseguía ouvir o bater do seu próprio coração, martelado, cada vez mais alto, mais possante, depois tomou-lhe a nuca, as orelhas, sentiu-as escaldantes, toda a raíz do cabelo se desenhou num risco só como se  aberta por um abre-latas. Dobrou-se, engoliu o cuspo que lhe crescía na boca, ajeitou a mira do olho ao buraco da fechadura.
Nada.
A íris rodou à procura, focou, afastou-se, rodou de novo, a respiração acelerou-se e a ponta das orelhas gelaram-se-lhe, nada, o olho insistente comprimido contra o aço da fechadura, um ar frio e fino daí a desprender-se e a furar a retina como uma agulha de anestesia, agora já de joelhos, uma corcunda, as duas palmas de batráqueo em leque na madeira da portada e o olho incansável, penetrador, violador, até que por fim, descobridor. Do lado de lá, um outro olho colado à fechadura da porta.
Luís gritou num berro histérico e Mariana, surpreendida pelo grito de Luís e assustada pelo olho, ginchou tão alto que o gato que dormitava em cima do jornal desapareceu, atirando ao chão na sua fuga, todas as revistas que se amontoavam em cima da mesinha de café.
Luís gargalhava de boca escancarada e dava palmadas no joelho.
- Estes gajos são uma bosta! Já estava mesmo a ver que só podía ser isto!
- Grande estúpido!!!
- Estúpido eu?! Estúpidos são estes gajos que fazem estes filmes! Não têm imaginação nenhuma!
- Grande estúpido!!!
- Eu já sabía que era um olho que ía aparecer do outro lado! Só podía ser! Só gritei para ver se animava isto!
- Grande estúpido!
- Ouve lá... acaba lá com isso que já me chamaste estúpido quantas vezes...
- Estúpido estúpido estúpido! Pronto!!! Queres mais?
- Vou-me embora! Olha que eu vou-me embora!
- Vai! Se é para me tentares matar é melhores ires antes que consigas!
- Matar? Mas este filme mata alguém? Isto é uma porcaria, melhor faría eu!
- Claro! Sua excelência é sempre melhor em tudo! Até a tentar matar a namorada! Estúpido!
- Ok! Agora chega! É de vez, bazo!
Luís agarrou no DVD e saíu. Bateu com a porta. Mariana ouviu o som do elevador a subir, o ruído metálico parecido com um soluço a anunciar a chegada ao piso, o som a descer. Atirou-se para o sofá. Depois ergueu-se e apanhou as revistas, endireitou-as, pensou que tinha que fazer uma escolha e deitar a maior parte ao lixo, pousou-as sobre a mesinha, voltou ao sofá, recolheu as pernas, massajou os dedos dos pés, suspirou muito, pensou em vingança, pensou no filme que acabara por não ver e nem saber quem estava do outro lado da porta. Tão só um olho. Um olho. O que é um olho sem o par? Sem o rosto, o corpo, o seu dono? Aborreceu-se. Voltou a pensar em vingar-se de Luís pelo susto que lhe infligira, depois ficou aborrecida consigo mesma por se ter comportado de forma tão infantil, com tamanho grito, que muito provavelmente iría ser tema da próxima reunião de condominio. Chamou o gato mas ele não veio. Sentiu-se mole, cansada, as pálpebras pesadas, pareceu-lhe um esforço hérculeo arrastar-se dali para o quarto, despir-se, deitar-se na cama, talvez esperar cinco minutos que aquela fraqueza lhe passasse. Fechou os olhos.
Acordou sobressaltada com o som da campainha, o coração desassossegado, a cabeça tonta sem tomar tino onde estava, o gato por cima da sua barriga arrancou cravando-lhe as garras para a impulsão do salto. E sempre a campainha sem parar, o dedo em cima colado. Espreitou pelo olho mágico e recuou que estava do outro lado um olho humano ampliado encostado à lente.
- Abre que sou eu!
Mariana agarrada ao peito e à barriga abriu a porta. Luís entrou às gargalhadas.
- Então agora não me chamas estúpido? Vá lá confessa! Agora estive bem! Não estavas à espera!
Mariana não conseguía articular uma palavra, quería mas não conseguía, parecia que tinha um nó na lingua, na garganta, quería chorar mas nem uma gota salgada para amostra, a sala rodava, ondulava, ficava escura aos poucos e de repente, foi o nada.
Luís olhou para Mariana caída no chão e ficou paralisado. Engoliu e não tinha nada para engolir. O gato apareceu e veio roçar o dorso e a cauda pelas pernas de Luís, depois foi cheirar o rosto de Mariana, a boca semi-aberta, o pescoço, a orelha esquerda, deu uma corridinha como se não tivesse gostado. Mas regressou. Acercou-se da dona, dos pés, trincou levemente o dedo grande, trepou-lhe pelas pernas até à barriga onde intensamente colou o focinho. O peso do corpo do felino sobre a roupa fez emergir o sangue dos cortes, Luís levou as mãos à cabeça.
- Ai meu deus!
E ficou nessa pose de estátua plantado no meio da sala até o gato desaparecer de novo numa das suas disparadas corridas. Sentiu que alguém o observava, sentía-o na nuca como uma chicotada, virou-se devagar, pé ante pé, primeiro o calcanhar e só depois a restante sola. De respiração presa a custo espreitou pelo olho mágico.
E do outro lado empurraram a porta que tinha ficado esquecida por fechar.
Luís caiu de costas mas rápido se levantou. Na sua frente, um homem de estatura baixa e roupão de xadrez com as mangas demasiado compridas para o seu tamanho, olhou-o profundamente e em silêncio.
Luís gaguejava apontando para Mariana no chão, e explicava atabalhoadamente tudo o que não lhe tinha sido perguntado, falava alto, gesticulava muito, ora rodando a cabeça no sentido da namorada ora no sentido do homem de roupão de xadrez, que se mantinha em silêncio e sem deixar de o fitar.
Por fim desistiu da argumentação e em passo acelerado abandonou o local, carregou no botão para chamar o elevador mas decidiu-se a deixar o sitio pelas escadas de serviço.
O homem de roupão de xadrez entrou, ajoelhou junto de Mariana, levantou-lhe a cabeça, colocou dois dedos junto à jugular, sorriu, pegou-lhe nos braços e arrastou-a até ao sofá. Finalmente, depositou-a aí garantindo que se encontrava numa posição confortável. Abriu-lhe uma das pálpebras e espreitou a sua reacção.
Mas o susto foi grande e o grito mais sonoro ainda. De ambos. Em uníssono.
- Sr. Alfredo! Mas o que é que está aqui a fazer?
- Eu vim por causa do barulho, sabe, é que já não são horas de se fazer tanto barulho...
- E o olho?
- O olho?
- O filme, o olho, o Luís...
- A menina tem de descansar, depois do trauma com o seu namorado...
- Ah... Mas o Sr. Alfredo já sabe?
- Se já sei??? Eu vi! Eu estava presente! Do outro lado da porta!
- Viu?
- Quer dizer...não vi bem, mas deve ter sido quando ele lhe bateu... e a menina desmaiou.
- Pois foi Sr. Alfredo, pois foi, foi isso mesmo, tal e qual o senhor viu...