O sobretudo

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Avistou-o sentado, aquele ar grave quase carrancudo que lhe conhecia parecia fazer parte da indumentária, um complemento ao sobretudo grosso cinzentão que lhe tornava os ombros mais quadrados.

Sentiu um aperto no peito.


Avançou, tocou-lhe na mão agarrada ao jornal, ele levantou-se e abraçou-a forte, vagarosamente, enorme na sua estatura, delicado no enlace.

Sentaram-se de mãos dadas, ela sentiu distintamente o calor dele amornar-lhe as suas vindas do frio de fora, o sorriso dele doer-lhe mais no peito.
Ele falou dos dias de sol por vir e do frio que os obrigava a chegarem-se mais um ao outro. Ela não foi capaz de lhe dizer, concordou com um aceno de cabeça, procurou dentro de si coisas bastantes que lhe mudassem a vontade mas não foi capaz.

Dizia que sim ao que ele lhe dizia e dizia não, nem sempre, à voz do peito, a quem falava fluente sobre a sua decisão mas emudecia-lhe o olhar quando achava que tinha chegado a altura.

Nunca seria a altura ideal. Nunca seria o nome do dia em que ele entenderia e nunca era também o carimbo que selava a coragem precisada naquele instante já tão adiado.
Nunca seria capaz de lhe dizer que o gostava como se gostam das coisas simples da vida, de homens bons que se zangam na ira da injustiça, daqueles que erguem o punho ao marcar-se a vitória. E nunca seria capaz de lhe dizer que no peito lhe faltava a lenha para queimar barcos e nadar até à margem só para agarrar a estrela do mar.


Por tudo isso, quando se levantaram ela enfiou a mão esquerda no bolso do sobretudo dele como sempre fazia. Por tudo isso ela voltou atrás para buscar qualquer coisa esquecida.
E por tudo isso ele haveria de a esquecer quando achasse no bolso o bilhete a dizer-lhe adeus.
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(Novembro/2008)

A caldeirada

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Entrei no tasco amontoado em forma de casa por umas tábuas ratadas de outros usos que tivera, mais pela necessidade de fugir das chapadas do sol que me comíam o pescoço do que propriamente pelo apetite que (não) tinha já perto da hora da degustação.
Estava fresco e uma luz quebrada permitia, finalmente, libertar as rugas dos sobrolhos que se esforçavam por proteger a vista.
Dirigi-me ao balcão mas nenhum empregado apareceu. Senti-me examinado pelos demais fregueses, que de lado e em viés beberricavam nuns copos atacarrados de vidro grosso. Antes que dissesse alguma coisa, um homem de costas largas como um armário vibrou-me um "Diga Patrão!", sem se voltar. Aproximei-me da cadeira onde se sentava, dobrado por uma barriga volumosa que o impedía à primeira de chegar ao chão: foi aí que notei que jazía um tacho largo ladeado pela sua perna esquerda, forte e musculada e a direita, que terminava num espigão grosso de madeira.
Fiquei atónito! Um homem com uma perna de pau!
-Vem para matar a malvada? - interrogou.
Eu estava sem palavra e completamente hipnotizado por aquele toco de madeira que lhe nascía das calças enroladas...
Mas também pela destreza com que manejava um canivete ferrugento e diminuto, ao rodelar as cebolas chorosas a que aqueles olhos e pele tisnados estavam imunes. Depois pegou numa cabeça de alhos e nas palmas calejadas fez uma papa odorífera capaz de matar qualquer vampiro. Do canivete saíram modeladas ovais de batata. Deitou-lhe grosseiramente partidos uns bons tomates vermelhos e envernizou tudo com uma golfada farta de azeite que não tinha marca.
-Patrão, vá-se chegando que a caldeirada tá a ser feita! - mas eu não me cheguei para lado algum que os aromas que provinham daquele tacho amolgado de apenas uma asa tão deficiente como o mestre que o enchía, eram um deslumbre para os sentidos.
Estava eu nestes devaneios do palato quando um ladrar furioso me acordou para a realidade: entrou uma figura amarrecada, escura pelo contra-luz da porta escancarada, acompanhada de um cão gordo e baixo, de pêlo hirsuto semelhante a uma alcatifa coçada pelo tempo: - Eh! Chico! Que nã havía maneira home! Tavas à espera que o pêxe te saltasse pra cima?! - e o Chico ladeado pelo cão Serafim que não se calava, depositou à beira do tacho um alguidar amarelento repleto de peixe viscoso.
O homem da perna de pau deitou dois dedos grossos a um pedaço de pata roxa, depois um naco de safio, uma fiada de raia, duas postas abertas de tamboril, uns figados de pescada e um e outro peixe indecifrável pelo seu aspecto tenebroso.
Serafim ladrou mais uma vez, rouco já; o cozinheiro de serviço alçou o toco de pau ameçando o canídeo. Temi pelo pior ao ver o canivete descrever figuras dignas de um florete em riste, mas o Serafim apesar de obeso tinha nas suas lides a do verdadeiro "toreador" e na perfeição de uma Verónica trocou as voltas e arremessou-se à perna verdadeira, arranco-me uma gargalhada que de imediato abafei não fosse o mestre-cuca tentar envenenar-me.
Voltou a regar tudo de largo azeite e no final, exclamando: -Agora, o principal! A capela! e afiou os olhinhos seráficos para o seu segredo, fazendo-me crescer água na boca e no espirito.
Que diabo era a capela?
Ao fim de pouco mais de meia hora, veio o tacho desasado para a mesa corrida, à laia de pega uma rodilha sebenta que levantado o testo chamou os outros desencostando-os do balcão. Sem toalha, nem guardanapo, nem faca, apresentaram-me à caldeirada num prato lascado de sopa.
Serafim agora emitia pequenos latidos e mordiscava como um palito a prótese carunchosa do nosso cozinheiro.
Todos comíam com gosto entre a fumarada dos pratos e o aluminio do tacho, desenvolvendo uma linguagem codificada que não entendía.
Entre as garfadas aparadas nos dentes gastos do meu garfo, desenterrei naquela molhanga saborosa um molhe verde e perfumado que o Chico apontou com o seu prato e me referiu entre os dois dentes que lhe restavam, "Oh! Patrão dê cá a capela!".
Fiquei assim deslumbrado com tanto sabor, tanto saber.
Consolado e esquecido das chapadas de sol, só me recordo de pousar a cabeça entre os braços e adormecer por cima da mesa engordurada, embalado por um assobio e uma luz encantada de final de tarde, linda, captada apenas pelas coisas simples da vida.




(Novembro/2005)