Tenho medo do escuro


 
 
 
Sabes, espero que um dia não haja noite.
Não venha o luar a projectar a minha sombra à luz deste candeeiro amarelo, eu muito esticada no chão cinzento como uma cuspidela puxada para escolher equipa, enquanto o fumo do cigarro amarga as horas de espera até ter que retocar o baton, sorrir e marcar o preço.
Esta parede que me ampara à escuta do silvo da bala está gasta. Está quente de nela me roçar, maltratá-la com o salto afiado do sapato, vingando-me finamente da cacimba que me faz tossir e do frio que tenho entre as pernas.
 
Lá vem ele. Dou-lhe o cardápio consoante os olhos dele se demoram por mim. Não quer, arranca e vai meter a primeira para outra viela esburacada.
Outro cigarro e uma pastilha elástica para enganar a fome de casa, da cama que é só minha, dos rangidos que gemem quando lhe ofereço o meu corpo calejado de outras camas, espancado de tanto deitar e erguer, moído de levantar deuses em homens.
O sino da igreja bate horas, poucas, muito para o que me falta. Ainda o cão há-de passar por mim, cheirar nas minha mãos a festa amiga, desconfiar na cauda baixa o mesmo medo que eu e afastar-se para um caixote de lixo como alimento dos meus sonhos.
 
Vou agora. Sem conversa. Levo-o atrás acompanhado da minha sombra.
Dispo a roupa, a cara, o miolo. Quando entrar em mim não vai encontrar nada, está tudo ali a monte, amarfanhado numa cadeira que serve de cabide. Ele deixa as meias num sinal de decência que o liga à terra e aqui, agora, é o inferno.
Baba-se, está faminto de mandar, comandar a ilusão que lá fora prostitui-se às regras. Sente vergonha de eu saber tudo dele, não me olha, quer apagar a luz.
 
Deixa...eu tenho medo do escuro.
 
 
 
(Junho/2007)

A grande aventura de João Pereira

 


 
Em Março, dia cinzento, pariu de cesariana: João Pereira vinha ao mundo.
Era um bebé sossegado, sem choro por birra ou fome, quieto no berço, empatado por uma roca a quem tinham tirado o poder de fazer barulho.
Teve as doenças normais para as crianças da sua idade, não fugiu à mão quando o levaram à escola pela primeira vez. Nunca houve queixas dos professores e também nunca conseguiu tirar uma nota para além do suficiente mais, o que deu à justa para cumprir o curso comercial que o seu pai lhe disse que teria que fazer.
Já tinha dado o nome para a tropa mas os pés chatos haviam-no livrado do serviço militar.
Arranjou um emprego num escritório de contabilidade, com horário certo, sem sobressaltos financeiros ao final do mês o que lhe permitiu reunir um magro pé-de-meia: João Pereira não era dado a devaneios da imaginação nem apetências por qualquer vício, ía e vinha de autocarro marcados num horário rígido, usava as mesmas roupas até estarem puídas e a moda era mesmo isso, uma moda.
Os pais apresentaram-lhe uma prima afastada, da província, com quem iniciou namoro por carta mas ao fim de um ano o compromisso quebrou-se, que a moça dera o salto com um homem casado para França e nunca mais ninguém soube deles. Mostrou-se pesaroso pelo abandono durante um tempo de resguardo, rapidamente esquecido quando entabulou conversa de ocasião com uma passageira do seu autocarro.
Ao fim de umas semanas convidou-a para tomar café e informá-la da seriedade das suas intenções, querendo conhecer a família dela. Noivaram por um ano e casaram. Ficaram um tempo a morar em casa dos pais de João, sem discussão ou diferendos, que ela era dócil e acatada nos dizeres dos sogros.
Mudaram-se então para habitação própria, próxima dos familiares, para que as visitas de Domingo ao almoço fossem facilitadas.
João Pereira engasgou-se com o fumo do charuto oferecido pelos colegas no dia do nascimento do seu primeiro filho, a quem decidiram chamar João. Ao fim de dois anos apareceu uma menina e declararam que a “fábrica” tinha fechado.
Tudo corria certo: Foi promovido pela antiguidade da casa e por nunca ter faltado, sendo considerado um empregado exemplar; nas férias faziam uma semana nas termas, que a esposa no último parto havia engordado mais de 20kgs e nunca mais recuperara a silhueta de solteira.
Os anos desfiavam-se num igual de horários, no cumprimento do dever ao trabalho, das obrigações fiscais, no pagamento das prestações do carro e da casa, na sua função de marido ao sábado à noite.
O filho João cresceu e casou, repetindo os passos dos progenitores.
Aos 23 anos de casados, João Pereira arranjou uma amante espanhola alta e magra, maquilhada e perfumada que lhe revelou os prazeres da carne sem a obrigação do compromisso social mas a quem no entanto, gostava de agradar, pelo que sempre lhe levava meia dúzia de pastéis de nata no encontro mensal que tinham.
Foi a vez da filha casar e sair da alçada da família Pereira.
Achou-se João e a mulher sozinhos na casa e na relação: pouco havia para dizer pois pouco havia de emoção vivida.
Partiu a mãe, e João viu-se na obrigação de recolher o pai Pereira, instalando-o no antigo quarto que fora da filha e entregue aos cuidados de sua esposa que cada vez mais gorda, menos se mexia.
Partiu também a espanhola, para uma morte fulminante em plena actividade profissional nos braços de um outro amante, facto que pela primeira vez na vida, trouxe a João Pereira algumas noites de insónia não tanto pela falta dos prazeres do sexo mas mais pela preocupação que o pudessem ligar àquela castelhana de conduta duvidosa. Mas o tempo passou e aos poucos a tranquilidade regressou à sua vidinha rotineira.
Fez um funeral condigno ao pai quando este se foi, para grande alívio da esposa, cada vez maior.
Mas a vida é mesmo assim e se a casa de João Pereira num dia se vazava no seguinte enchia-se: vieram os netos em correria, desafiar a paciência da avó e a pouca mobilidade que esta tinha, puxaram as calças e a atenção de João Pereira fazendo perguntas às quais ele não sabia responder.
Cresceram os netos e o silêncio voltou.
Reformou-se.
Por esta altura tinha o carro completamente pago e não tinha nos seus horizontes adquirir mais nenhum, que este estimado, ainda duraria mais uns dez anos ou pelo menos até ele deixar por completo de conduzir.
A casa onde moravam tinha o empréstimo bancário satisfeito há mais de um ano.
Ao fim de seis meses em chinelos, completamente perdido da rotina de tantos anos, sentiu uma dor forte no coração e depois de esperar bastante foi-lhe diagnosticado pelo médico de família uma angina de peito.
Passou a comer de tudo com peso, conta e medida ou seja, muito pouco, pouca diversidade e muito desânimo.
Ficou viúvo e um enorme vazio tomou a casa, não só pela saudade como pela abundância de espaço que a esposa ocupava.
Os dias cada vez maiores e as noites cada vez mais longas arrancavam-lhe suspiros profundos e uma letargia que quando nela pensava, não encontrava a sua origem. Chegou mesmo a sentir tristeza e tão pouco sabia porquê já que nunca tinha sido infeliz.
Pensou até e mais do que uma vez que a vida tinha sido generosa com ele.Tentou passar o filme da sua existência e achar uma coisa mal feita, um engano seu, um sobressalto…mas nada. Era uma folha limpa.
Tão limpa e imaculada que nela encontrou a grande falta da sua vida.
E foi precisamente no dia em que descobriu esse segredo, que morreu.
 
9 Fevereiro 2006

Quem ensina quem



 
 
As mãos enterradas fundo nos bolsos, o queixo um pouco deitado sobre o peito arqueando-lhe as costas largas, o olhar vigilante perante o desfile ruidoso daqueles pés pequenos que matraqueavam o soalho a compasso de gargalhadas e puxões de cabelo e fitas de bata armadas em laços farfalhudos.
O Prof. Ricardo de pé, mais alto que a sua altura por estar no estrado que vigiava a sala de aula, aguardava em silêncio que os novos alunos se acomodassem. A pasta de cabedal, manchada na pega e no fecho de metal pelo uso da mão, estava gorda de papéis.
Entraram vinte e três. Ele fechou a porta. Identificou-se como o Prof. Ricardo de Ciências Sociais e Humanas. Apercebeu-se da troca de olhares e algum pânico na cara daqueles miúdos de onze e doze anos. Tentou suavizar o ambiente e perguntou-lhes o nome individualmente: pela primeira vez haviam turmas mistas e só três no total daquela escola. Organizou o discurso, tentando disfarçar o seu nervosismo com as mãos ainda escondidas, um tom de voz demasiado baixo para que no fundo da sala se pudesse escutar, começando por explicar que “eles” faziam parte de um projecto-piloto, único no País; que iriam ter disciplinas de que nunca teriam ouvido falar mas que ele, assim como os outros colegas estavam ali para os ajudarem.
E a primeira coisa a fazerem era aproximarem-se uns dos outros: pediu que dessem as mãos mas rapidamente um rapazinho sardento e de nariz afiado concluiu que era uma tarefa impossível, por causa das secretárias dispostas como bancos de autocarro. O Prof. Ricardo mandou-os levantar e dirigiu-se ao altivo estrado e pediu que um deles tomasse assento à sua mesa e então daí, tentasse agarrar a mão dos outros. Gargalhada geral que todos perceberam a incapacidade.
O Prof. Ricardo pegou na sua secretária e levou-a para junto das dos alunos, puxando igualmente as mesas deles e pedindo ajuda, dirigiu as mudanças no meio de um reboliço barulhento, com muito arrastar e gargalhada à mistura, enganando-se uma e outra vez a chamar pelos nomes deles, o que só provocava mais riso entre todos.
No final, todos ficaram silenciosos a olhar para o resultado: agora havia um círculo perfeito e fechado, uma mesa redonda gigante. Sentaram-se e sem pedido, o Prof. Ricardo viu formar-se uma corrente de mãos, sendo ele o ultimo a atar as suas nas pequeninas que se lhe davam.
Percebeu de imediato que aquelas eram gentes especiais, muito longe das turmas problemáticas que até então havia tido e resolveu jogar tudo de uma só vez: distribuiu, fazendo correr os programas de mesa em mesa, um tema a ser estudado e debatido; seriam eles que levariam o material de estudo e apresentariam para os demais o trabalho feito em grupos; cada grupo teria um moderador e um orador.
Uma menina assustou-se e inquiriu o Prof. Ricardo quanto aos testes, quanto à maneira de recitar as aulas, quanto aos livros e o material a comprar…ele sobressaltou-a mais ainda quando, claro e bom som, decretou que não haveria testes ou exames com ele. Apresentou a bibliografia a procurarem os sítios onde deveriam ir, sublinhando o pormenor dum jardim junto ao sítio tal ou tal, ou uma casa de gelados onde deveriam experimentar o molho de morangos com amêndoas.
O grupo barulhento estava perplexo, sem saber se isso era bom ou mau.
Entrou a Prof. Teresa com um gravador pendurado e os alunos levantaram-se.
Ela fez sinal com a mão, num gesto leve de pluma que cai, para que se sentassem e beijou o Prof. Ricardo nas faces, ligou o gravador à tomada e com um dedo esticado calcou um botão preto que de imediato, fez soltar uma voz forte e rouca que proferia “OH! Lord, won’t you bye me?”.
Os dias passaram, as semanas, as férias escolares vieram mas sempre se encontravam: ou numa biblioteca ou se organizavam para irem professores e alunos ao cinema ver um filme sobre o nazismo e o colaboracionismo, ou uma exposição sobre Rodin, até mesmo à Ópera foram.
Um ano decorreu desde que o Prof. Ricardo havia esperado por aqueles miúdos, que agora que se aproximava o segundo ano desse projecto-piloto, tinham crescido.
A elas crescera-lhes os seios, a eles a voz tornara-se grave, um e outro olhavam-se de forma especial despertando para o amor.
O Prof. Ricardo também estava diferente, mas só por dentro.
Sentia-os não como seus filhos mas como homens e mulheres, amigos, leais, cúmplices de um só sentir.
O segundo dos anos terminou: fizeram uma festa, com muito riso, muita recordação, muitas lágrimas.
Os pequeninos já não eram pequeninos, tinham altura e personalidade definida.
Seguiram os caminhos da vida, um foi médico outra partiu para África para uma causa humanitária, outro cineasta aquela professora de linguagem gestual…
Passaram trinta anos.
Organizaram um jantar, ainda todos estavam vivos e juntos na mesma vontade de se encontrarem.
Os professores tinham falta de cabelo e rugas, reumático e muitos quilos a mais. Mas o sorriso e o brilho nos olhos era tão igual ao que passara.
O Prof. Ricardo bateu as palmas e pediu a atenção de todos.
A rirem e com muito arrastar de cadeiras, levantaram-se os alunos. A Prof. Teresa repetiu o gesto de pomba que levanta voo.
O Prof. Ricardo tirou os óculos que agora tinha de usar e falou do lançamento de um livro seu, que muito gosto tinha em que todos estivessem presentes nesse dia.
Alguém em voz alta, lá do fundo da mesa, gritou:
- “ Como arranjou tempo, sempre a dar aulas, para escrever um livro, Professor?”
Ele enfiou as mãos nos bolsos, nervosamente, as costas agora arqueadas do tempo e da vida.
- “ Depois que se foram embora, só leccionei mais dois anos…foram os piores da minha vida. Não aguentava mais…Não queria mais, sem vocês… Renunciei à colocação e fui demitido! Ainda bem! Senão não estaria aqui, agora, convosco que me ensinaram tudo”.
 
 
24 Janeiro 2006

O eclipse





Uma manta branca de nevoeiro frio e molhado cobria os céus e lentamente como uma dama baixava uma saia suave para a terra.
Nas copas das árvores gotejava um orvalho cristalino que lacrimejava incerto para o solo.
E rápido, um prisma de arco-iris reflectiu rasgando em sete cores aquela água minúscula, atravessado como uma seta, pelo raio do astro maior.
O horizonte pintou-se então bicolor a azul fundo e laranja vivo.
O grito do pássaro deu o sinal de iniciar a vida e o planeta reiniciou a sua marcha.
O Sol, agigantado pelo olhar dos homens e vaidoso da sua imensidão abriu o peito e insuflado como um pecado bufou calor em toda a sua plenitude.
Ela em prata e namoradeira, covinhas de sorriso de raposa foi chegando sem ruído, dois passinhos de cada vez e quando se deu conta, o Sol tinha sido atropelado pela frescura daquela Lua.
Ficou a vê-la atónito, desejoso de lhe tocar, de se dessedentar de tanto calor. Ela ousada e poderosa nele se encostou e gostou daquele quente de desejo que o Sol maior lhe dava, intercâmbio de funções, um mercantilismo de poderes que ninguém entendia.
Dançaram e os homens tementes protegendo os olhos com a palma da mão deixaram que aquela imagem lhes tatuasse na alma para todo o sempre a força que o Sol e a Lua empurravam um para o outro.
Tanto se quiseram que por tempo não medido pelo tempo da Terra, o Sol apareceu a quem tinha o poder de o ver e enfeitou-se de Lua pois primeiro numa dentada, depois num quarto minguante trocou as voltas à volta do Universo e a Lua mascarada de Astro Maior emitiu luz, uma luz branca e amarela como se fosse de seu poder fazê-lo.
Ficou assim parado o Mundo, num anel perfeito que tapou os defeitos dos homens, escureceu os ódios e a mentira, esqueceu as diferenças, apagou a solidão.
E porque a Lua começava a derreter de tanto amor do Sol e o Sol tremia da emoção da Lua, despegaram-se os dois levando um pedacinho de si que vão guardar em gotas de nevoeiro, pinceladas a sete cores do nascer do dia até de novo se encontrarem daqui a vinte anos.
 
 
(Rio Tejo, 3 de Outubro de 2005)

A tomada de Al Ain

 

 
 
 
O amanhecer despontara nevoento e encarniçado, pelo calor que iria fazer pelo dia fora.
O castelo de Al Ain erguia-se altivo, porém assustador envolto naquela bruma misteriosa que não deixa ver com a perfeição que se pretende, todo o seu contorno.
E os olhos dela, habituados a planícies rasgadas de oiro e sol não estavam preparados para aquela penumbra; nem o seu faro se tinha alguma vez destinado a sentir aquele aroma de fungos, bafio e coisa velha que se guardam sem tempo definido.
Até o silêncio parecía amordaçado no século, de tão abafado e denso se sentia.
Ela mantinha-se escondida, expectante na hora do ataque.
Havia vários meses que se alimentava de bagas e raízes como um animal, sempre vigilante naquelas ameias, cuidando para que as saídas e entradas lhe fossem todas conhecidas. Mas por mais que se mantivesse alerta não vislumbrava ninguém a entrar e como tal a sair. Só o Senhor de Al Ain costumava nas noites de lua cheia se passear nos torreões, deslizando como se não tivera pés, mãos presas uma na outra como agrilhoado a si mesmo estivesse, nariz adiantado a farejar perigo que não se via. E sempre, sempre de armadura cinzenta, fria e pesada.
E ela, invasora, certa que não houvera sido descoberta, inquiria-se porque se aferrolhava ele naquele esquife metálico se nada havia a temer. Este Senhor de guerra com nome que fazia tremer os seus inimigos não saía, não montava, não ordenava a seus besteiros que defendessem o seu escudo. Tão só na noite assomava como se o assaltante de seu próprio castelo fosse ele.
Ela manteve-se durante muito tempo a estudá-lo e sabia já os seus passos, conhecia as voltas da sua capa quando terminava a ronda de lua cheia.
Um dia, cansada de vigiar sem ter que se defender da ocupação do terreno de caça do Senhor de Al Ain que fizera havia muito tempo, muitas luas cheias, lançou o seu grito de guerra e de punhal em mão – que agia sempre só e por si – resolveu fazer-se ao estrado que conduzia ao interior do Castelo. E surpresa viu-o baixar, as correntes ferrugentas em ressalto largarem as conchas onde se anichavam, as portadas escancararem-se e no interior uma arrumação desoladora, sem sobressalto, mas também sem gente lá vivendo.
Tão só o silêncio.
Entrou cautelosa, punhal em riste preparada para defender o seu corpo e alma, atacar quando a isso se visse forçada.
Mas nada, só o silêncio.
E quando se descurou e encontrou uma côdea de pão levando-o à boca ávida, apareceu-lhe aquela figura nocturna perfilada de luz lunar, que a surpreendeu e não atacou. Antes pelo contrário: debaixo da sua cota de malha tirou um pão fresco, grande e loiro que lhe deu em grandes pedaços.
Ela matou a fome.
Mas não matou mais nada que aquele Senhor era o Senhor de Al Ain.
E perguntou-lhe onde estava o exército dele, os seus cavalos, a sua princesa.
O Senhor de Al Ain não lhe deu resposta.
Então, ela afastou-se e percebeu porque razão ele estava sozinho, agrilhoado a si mesmo; porque não se permitia ver o sol em vez da lua; porque razão aquele cheiro de fungo e mofo se propagava por vários hectares de terra de caça.
É que o Castelo do Senhor de Al Ain era o seu próprio silêncio. A sua masmorra.
E nada nem ninguém podia tomar tal fortaleza que o Senhor de Al Ain a ela se tinha rendido há muito, apreciando a si aquele mutismo castrador da vontade de mudar e conquistar além.
Ela saiu. Ele estava perdido dentro de si. Nada podia fazer por ele, pois o Senhor de Al Ain não o queria.
 
 
10 Outubro 2005

O beijo

 

 
 
Envolvidos por uma história de encantamento e comoção, permaneceram juntos para além daquilo que sentiam um pelo outro.
Acharam no hábito a obrigação do compromisso até ao extremo da relação.
Surgiram os ciúmes, a desconfiança, o mal-estar.
Ele impunha-lhe uma conduta de olhos baixos, alheada ao resto do mundo; ela contestava, e dizia não entender; ele argumentava que era bom sentir ciúme, demonstração do seu amor e zelo; ela sorria, sentindo-se única e orgulhosa por esse cuidado especial, enganando-se a si mesma.
Mas depressa os laços que os uniam começaram a ficar fracos e esgaçados por uma constante discussão sobre a verdade e a mentira.
Havia sempre um cansaço latente na aproximação, no diálogo e até no silêncio.
Surgiram depois, as cobranças: aquilo que ela deveria fazer por ele se o amasse; as flores que ela devería receber caso ele fosse “mesmo” sincero. E todos os actos eram medidos na perspectiva do bem e do mal, do mais e do menos, do eu e do tu.
Começaram as vigias e as perseguições.
Se não se encontravam morriam de saudade um do outro; se estavam juntos discutiam constantemente; se um telefonava ao outro desmarcando o encontro, de imediato a acusação saltava, procurando nessa ausência anunciada o prenúncio da traição.
Havia berros e lágrimas, ódio e paixão, remorso e dor. Tudo levado ao extremo. Tudo empolado até se transformar num mal, numa patologia.
 
O dia de trabalho tinha chegado ao fim.
Ela saiu e sentiu na cara o escaldão do Agosto, seco, ardente. Ficou uns segundos parada no passeio, a ambientar-se à canícula e desejando estalar os dedos e por magia aparecer em casa, no resguardo da sombra e do fresco. Começou a sentir um fio de água nos sovacos e no vale dos seios. Agitou a mão como se fosse um leque. Sentiu dois dedos espetarem-se nas costelas e deu um pulo. Rodou e viu nas suas costas um amigo que há muito não encontrava.
Riu. O amigo também. Saltaram nos braços um do outro, o instinto a abraçá-los.
Ele convidou-a para um refresco; ela de imediato aceitou; e, depois, desfez – mal - o sim que acabara de oferecer, saltando-lhe à imaginação mais uma discussão feia com o namorado.
O amigo percebeu e fez uma alusão ao carácter desse tal que a tinha roubado aos amigos, ao social, à própria vida.
Ela só baixou os olhos e não foi capaz de arranjar argumentos capazes de o contradizer.
Disse só que se fazia tarde…que era tempo de ir. E ele, no receio de perder a amizade dela por mais um tempo indefinido decidiu acompanhá-la. Ela ainda hesitou e avançou uma e outra frase tentando demovê-lo, suspeitando que o namorado a apanhasse numa falta que na verdade não cometera. Mas a inocência da relação dos dois não dava mote a conversa alheia e acabaram por seguir juntos.
Conversaram do que faziam, dos planos para o futuro, das brincadeiras do passado, recordaram amigos comuns, alegrias em conjunto enquanto bando de estudantes à solta. Riram. E calaram-se de supetão quando chegaram à porta da casa dela.
Parecia o fim do caminho.
Ele pousou-lhe a mão no ombro e pediu que se cuidasse, que estava magra demais, triste no olhar, esquecida dos sorrisos.
Ela baixou o rosto e não disse nada.
Ele dobrou-se um pouco e beijou-lhe a testa, afastando a franja rebelde.
Ela fechou os olhos e sentiu um aconchego no coração por aquele momento de paz.
Para logo sentir um abanão, um esticão no braço que a trouxe de rojo para longe do momento.
Surpreendida, pareceu acordar, e com um semblante de pavor constatou que o namorado estava ali.
Ali mesmo, junto dela e do seu amigo.
Os passantes olhavam e paravam perante a gritaria e a injúria oferecida ao vento.
Ela calada e presa por um braço ficara muda, sem conseguir libertar-se ou falar o que quer que fosse em sua defesa. Só olhava para o seu amigo, que tão atónito como ela, perdera igualmente a capacidade de reagir.
Foi então que o chão se abriu mas não o suficiente para a engolir a si e à vergonha do que sentiu: o namorado agarrou-lhe o pescoço e forçou-a a beijá-lo nos lábios para logo de seguida, prender nas mãos o pescoço do seu amigo e beijá-lo igualmente da mesma forma.
E depois de tão surpreendentemente ter aparecido assim se foi.
 
Ficaram os dois sem nada proferir, ela deitando um fio de lágrimas, ele afagando-lhe a cabeça. Amigos como sempre haviam sido.
Não disseram adeus, partiram no silêncio da dor comungada.
 
6 Fevereiro 2006
 

Nina


 
 
O sonho dela era o mar.
O sonho dele é que ela fosse feliz.
Viviam sem medir as estações, os traços de riso a marcarem o rosto um do outro.
Tinham-se e isso era o bastante.
Mas porque ele lhe via nos olhos de quando em vez, aquela busca distante da linha do horizonte que separa o azul do verde e não lhe podia dar o mar embrulhado como um presente, resolveu construir uma miniatura de um veleiro que lhe aportasse à vista o sonho na sua mão. Assim, poderia sempre embalá-la no seu colo e imitar as ondas do mar, enquanto ela extasiada, elevava o barquinho ao alto e soprava sobre a vela branca como a brisa do mar.
O amor que ela lhe tinha era tanto que quando soube o que ele lhe queria oferecer pediu-lhe que construísse o seu sonho dentro de uma garrafa. Ele admirou-se com o pedido dela. Ela respondeu-lhe que assim o seu sonho nunca fugiria e sempre estaria presente para os dois.
E durante muito tempo ele foi encavalitando pedacinhos de madeira, colando lasquinhas de pau, minuciosa e lentamente, não só porque o trabalho era de paciência mas também para que o prazer de ambos perdurasse como prova do que tinham um pelo outro.
Quando o veleiro esbelto e delgado foi concluído, imponente com a vela alva alteando dentro da transparência do vidro da redoma que o encerrava, ele pintou a letrinhas brancas a palavra Nina, que era o diminutivo de menina.
A sua mulher menina recebeu-o nos braços e os olhos tão vidrados de lágrimas como a garrafa que protegia o seu sonho, mostraram a ele que tudo o que precisava na sua vida, tinha.
Passou muito tempo e de quando em vez punham-se os dois ao longe, a admirar aquele veleiro elegante que parecia navegar no azul do céu, livre, a vela enfunada e garbosa.
Um dia, ao prepararem-se para uma dessas viagens que faziam, ela ao transportar a garrafa deixou-a cair.
Tinha passado muito tempo que estavam juntos e as mãos dela tinham perdido algum vigor e a força de outrora tinha ido toda só para o coração.
A garrafa ficou a balouçar no chão, intacta.
Mas o veleiro rachara-se ao meio e a vela majestosa, perdido o apoio do mastro grande. Jazia em dois e chocalhava com um barulho de roca triste.
Ela olhou para ele e não foi capaz de dizer nada…Ele agachou-se com alguma dificuldade e tomou nas mãos o sonho quebrado depositando no regaço dela o Nina.
O nome continuava inteiro. Foi então que ela notou que dentro do barco agora esventrado, um rolinho de papel amarelecido espreitava. Ela abriu os olhos e ele sorriu-lhe com a juventude do seu amor.
Ela sacudiu a garrafa transparente e o pedacinho de papel saiu como por magia. Desenrolou-o e leu “Amo-te Nina”.
Ele beijou-a meigamente na testa e ela abraçou mais o seu sonho.
O tempo levou-os mas há quem afirme que de quando em vez um veleiro sobrevoa os céus, quebrado no mastro, e até algumas gargalhadas se escutam para o mais apurado de ouvido, tornando felizes aqueles que o avistam.
 
30 de Agosto de 2005
 

A entrevista

 



Pediu que se sentasse, a educação obrigou-a a ficar de pé. Depois tomou assento, olhou as folhas ao contrário e descobriu-lhe o seu perfil. O interlocutor não a olhava, ajeitava os cantos das páginas, arrastava o nome como quem pega num carro que esteve muito tempo parado. Ela não sabía onde pôr as mãos, lembrava sua mãe e a proibição sobre cotovelos em cima da mesa, entalou-as entre pernas e sentiu as virilhas húmidas pelo nervoso que a electrificava, ía dizendo para si não falar, não falar antes de te fazerem a pergunta, abrir os olhos e escutar com o corpo todo, sentir o que vem do outro, as aproximações, o cruzar de braços, aprendera isso. A pergunta apareceu com reticências no final... A mudança, a mais-valia, empregou chavões com cabimento, não se balançou na cadeira, deu espaço, elogiu-se sem ser narcísica, calou-se quando interrompida. Mas as mãos traíam-na a cada espaço, volteavam, os dedos arqueavam-se como asas de pombo no namoro e por mais que a razão as atasse lá voltavam elas a voar independentes de lições bem tomadas. Não quis olhar o relógio, o interlocutor fazía-o por si e pela tarefa a cumprir, mais uma serei eu, não mais uma serei eu, que pensa ele de mim, porque não me vem à boca a frase certa como uma legenda correctamente revista? Colocou a tampa na esferográfica e ela sentiu o fim, ergueu-se, agradeceu e atabalhoada no comando das mãos recebeu dois beijos que não sentiu. Depois a sala agigantou-se na distância entre eles, sentiu-se cuspida para a parede que tinha nas costas, ouviu a resposta ao longe, muito ao longe: demasiado criativa para o que pretendemos, o seu lugar é nas artes, noutro sitio qualquer menos este, temos pena. As penas das mãos estenderam-se de novo e ela voou não sabe para onde, essa lição nunca aprendera.


Abril, 2010

Zé Grande

 


Fechou os olhos e deixou-se ir, abraçada àquele torso vestido de negro e saias como ela. Lembrou-se que talvez fosse uma dádiva, um sinal lá do alto, a bendita, a escolhida, uma outra Maria. Abriu os olhos e viu a figura do Padre novo a afastar-se do seu corpo.
No dia seguinte, o velho Pároco Ramiro voltou, restabelecido das maleitas da psoríase, curado pela visita ao Vaticano.
O novo fora-se. Para todo o sempre.
Nasceu gordo como um bácoro.
A mãe esvaiu-se alagada nos sangues, no esforço de o parir e de implorar ao Criador que a mantivesse pura e casta. A parteira já com cinco para criar, condoeu-se da orfandade daquele bastardo e como boa cristã deu-lhe o peito ainfa farto do seu mais novo.
Ele deitou as mãos cerradas ao monte de carne e agarrou-se à vida.
Nada lhe faltara: Comida, parceiros de brincadeira, trabalho, pancada no lombo, um tecto, um pai e uma mãe. Nunca se inquietara a procurar a origem das suas diferenças: o nariz fino contrastava com o amontoado arrebitado do dos seus irmãos, o cabelo liso e negro destacava-se entre as cabeças cor de palha do resto da familia, mas o que mais se distinguía era a sua desmesurada corpulência e altura no meio dos corpos largos e atarracados do resto da prole.
Ficara Zé, de seu registo civil José Machado, por todos conhecido como Zé Grande.
E como os tempos eram duros, a lavoura o sustento e oito a comer, foi-lhe dado em destino o jus ao nome que ganhara: não havía árvore que o não temesse, lenhador que o ignorasse como valente a manejar a ferramenta e os seus dois metros de altura deram-lhe a lenda de ter sido gerado pela seiva de um eucalipto.
Gostava dessa história que ouvía de si.
Sempre tinha gostado de histórias, especialmente as que sua mãe contava. Também não conhecía outras, que a escola não o tinha merecido. Somava coisas por associação, por abate de troncos, por sobras de pinheiros. E bastava.
Não quería saber de quem o tinha deitado ao mundo, nem tão pouco como morrera: essa era uma história que já lhe havíam soprado mas que nenhum interesse lhe despertava. A sua familia eram os Machado e a sua vida cortar árvores.
Ía o Agosto perto do feriado e o calor apertava cada vez mais.
Aqui e ali chegavam noticias e fumo escuro de labaredas que comíam o verde. Bombeiros, só o nome lhe conhecíam que ali ninguém chegava nem quería saber. Era cada um por si a tratar das suas coisas e com a mão esticada ao Senhor Prior ao Domingo cobrindo o rebanho, tudo se salvaría.
Zé Grande, à soleira da porta falava para dentro, para a mesa onde já todos se havíam acomodado à ceia e onde ele não cabía. Tería que esperar que dois dos seus irmãos terminassem e lhe dessem a vez.
- Pai, com as festas tão perto e o lume a vir por aí, ninguém vai ligar!
O Pai mastigava e não respondía.
- Pai, tou cá com umas ideias...
O pai continuava a mastigar, olhou-o e arrotou.
- Pai, tou capaz amanhã de roçar aquele mato lá perto da Candosa...
O pai olhava o tecto ao vazar o copo de morangueiro.
- Pai, é que a Senhora vai passar pela Candosa e tenho cá um destes medos que se ateie ao manto... e depois vai tudo pró baile, ninguém quer saber senão da bailação!
- Vai lá Zé. Mas cuida que do nosso pedaço não fique restolho, que s'o demo s'apega! Nem sei! Nem sei rapaz! - E o pai tirou o boné com a mão direita e com essa mesma mão rapou na careca orlada de um tufo ruço.
Ergueu-se, espreguiçou-se e deitou abaixo os suspensórios. Recolheu-se aos fundos da casa.
Zé Grande, animado pelo consentimento do pai, saltou como uma mola e de empurrão enxotou dois dos manos, tomando o assento ainda quente do banco corrido.
O lugar do pai ficara vago.
Comeu numa pressa e pediu à mãe que lhe fizesse a cama. Quería dormir depressa para rápido chegar à serra e limpar o caminho por onde aquele andor coberto pelo azul celeste do manto da Senhora da Candosa havería de passar.
A mãe que o conhecía como um dos seus, pois que lhe havía dado do seu leite, esticou uma coberta no chão, e depois uma outra, que mesmo em Agosto, ele há noites de sereno.
Sorría para o seu Zé Grande. Entendía o que lhe ía na alma. E até já magicava numa história inventada sobre a Senhora a aparecer-lhe quando ele andasse no mato ruim. Zé Grande deitou-se nos panos: Não havía tamanho nem espaço de cama que comportasse um homem com dois metros.
Era escuro quando pegou no machado e na foice e se abalou serra acima.
Os olhos dominavam o breu e o barulho dos ralos indicava as bermas farfalhudas de fetos e amoras silvestres. Subía, subía sempre, uma e outra vez pisando o visco que soava a sapo chamando a fêmea. Quando atingiu o cume e a vista alcançou o coreto branco, as estrelas começaram a apagar-se e um fio amarelo riscou nos cabeços dos outros montes.
Tirou a camisa e atou-a à cintura.
Puxou atrás o braço direito armado da foice amolada e num silvo decepou o matagal seco e agreste.
Um pássaro largou como um eco as asas batidas em fuga.
E durante um tempo nenhum ruído se ouvía para além do aço implacável rasgando o ar até ao restolho teimoso que ficara de outros verões. Continuou sem cansaço algum até se deparar com um eucalipto magriço e esticado, bem no meio do rumo da procissão.
Primeiro atónito - que nunca vira ali aquela árvore - e depois desafiado na sua altura - um pouco acima do seu tamanho - largou a foice e de duas mãos pegou no machado, decidido a deitar abaixo aquele poste que se lhe metera ao caminho.
Mas quando dirigía o gume afiado ao tronco esbranquiçado do eucalipto, ouviu um grito e falhou o alvo.
Malfadada machadinha que lhe fugiu ao pé esquerdo e enterrou a lâmina no peito protegido pelo cabedal ensebado da bota. Mas fina do uso, escachou-se numa fenda e deixou o pé desarmado numa ferida esbeiçada.
Caiu por terra e naquele momento nada mais havía que o seu pé, todo ele era um pé, tudo na serra era a dor que sentía.
Agarrou-se ao seu ferimento, os dois metros enrolados como um bicho-de-conta, a garganta aberta para o grito que não saía. Rolou de um lado para o outro e por fim, com nitidez, o céu, já muito azul, uma bola amarela lá no alto. Ficou assim, as lágrimas a salgarem a terra, misturadas com sangue que se empapava nos torrões secos. Viu um rosto debruçado sobre o seu. Uma aura azul celeste emoldurava umas faces brancas e uma boca vermelha repetía senhor, senhor, senhor... Quando acordou estava suado nos panos que lhe servíam de cama. O pai passara perto na carroça do Manel da Rabina e estranhara o silêncio da serra. Deu com ele de olhos fixos no céu e comentou com o companheiro que era o diabo do Padre que havía voltado para o reclamar. Levaram-no de arrasto até à carroça e no meio de bostas para estrume e uma cesta de uva morangueira fizeram o transporte até casa. A mãe coseu-lhe o pé, um ponto cruzado como fazía nos buchos e nas mulheres que paríam. Revezaram-se todos até ele dar acordo de si. Ficou por três dias deitado mas só falava do trabalho inacabado, guardando para si o rosto celeste. Estava certo que era a Senhora da Candosa que o havía visitado. Mas nada dizía. Era véspera do feriado e à noite havía baile. Tudo se abalou à serra, rodearam o coreto para admirar os metais polidos e desafinados, espreitaram a quermesse, conversaram com o Padre. Zé Grande, manco mas feliz, arrastava o seu tamanho aos ressaltos. Deram-lhe uma cadeira perto da roda do baile para que não perdesse o espectáculo. O povo levantava os braços e os rolos de poeirada não incomodavam ninguém que os giros e as voltas eram a coisa mais apetecida desde o ano que passara e de infortúnio já bastava a míngua da vida e o que acontecera a Zé Grande. Foi no meio do folguedo que ele de novo a avistou. Soergueu-se mas ao impulso da sua vontade a dor no pé segurou-o. E o Padre também, que lhe deitou a mão à camisa branca de mangas muito curtas para aquele tamanho todo. - Onde pensas tu que vais? Compostura, meu rapaz! Que aquela menina é a filha do Governador e está aqui para se curar dos pulmões! Que nem te passe pela cabeça olhar para ela! Tu vê lá o que arranjas à tua familia e a nós todos! Que o Sr.Governador Civil tem sido muito amigo das gentes da Candosa! Que o Senhor o proteja por muitos e bons anos! - e elevava o indicador à testa e ao céu. Mas a menina doente dos pulmões não o estava dos olhos e era impossível não mirar obssessivamente aquele homem tão grande e tão pequeno como o vira enrolado no chão. Recordou o seu grito dias antes, ao vê-lo enorme a derrubar mato e a árvore onde acabara de fazer uma promessa, como lera num romance de amor às escondidas. E como depois sentira um medo a tomar-lhe o corpo quando vira tanto sangue e o homem parecía ter morrido. Fugira a bom correr, as faces afoguearam-se-lhe e a enfermeira que lhe perdera a trela serra abaixo ficara encantada com aquele rubor. E o seu pai, o Sr. Governador Civil também ficaría. Zé Grande continuava de pé. Olhavam um para o outro. Tudo à volta tinha desaparecido. Juntaram as mãos e dançaram. Os outros afastaram-se mas os acordes eram um veneno que lhes dava alegria e depressa esqueceram o par. Bailaram muito e Zé Grande sentía o pé a crescer, uma baba quente a arder pela perna acima. Levou-a até ao assento e murmurou que já voltaría. O barulho era muito, os risos ecoavam a serra e ela não conseguía ouvir as palavras dele. Zé Grande disparou serra baixo, uma correría feita a uma perna que tinha de poupar o pé aleijado. Já nem lhe doía. Só vía o rosto da menina, o manto azul celeste da Senhora da Candosa a enfeitá-la. Atirou com a porta de casa para trás. Ninguém. Descalçou o sapato e verteu o sangue que se havía acomodado numa pasta de terra. Não reconheceu o pé, nem tão pouco os pontos cruzados dados sabiamente pela mãe. Procurou a caixa de costura e enfiou a linha grossa e negra dos buchos na maior agulha que encontrou. Bebeu do medronho do pai, goladas fartas que lhe escorreram até ao peito e afastaram o cheiro de suor. Cerrou os dentes e enterrou a agulha com força, unindo as duas metades da carne, espremidas entre sangue e uns veios brancos que teimosamente queríam fugir ao ponto. Acabou por vazar a aguardente. Enrolou um pano ao pé e com força ajeitou o trambolho para dentro do sapato. Bateu a porta e correu serra acima. Não há árvore que o não tema nem lenhador que não lhe louve a coragem. O Zé Grande salvou a serra da Candosa, que no dia feriado apareceu um fogo que não passou de fogaréu e todos o combateram sem problemas. Graças à limpeza que o Zé Grande fizera dias antes. Todos lutaram contra o lume menos o  Grande que ficou retido em casa, doente e a delirar. Agora é coxo. Até dá piedade. É que naquela noite na véspera da procissão, e do fogo e do feriado, quando o Zé Grande atingiu de novo a serra, já a festa havía terminado. E a menina havía sido levada pelo Sr. Governador Civil. Para todo o sempre.
 
 
Janeiro 2007

Como pintar uma assoalhada de 20m2 em apenas 3 meses

 




MÊS UM
 
 
Decidi mudar a minha vida e como tal, nada melhor do que começar pela nossa própria casa.
Como a coisa vai mais ou menos ( mal) e não dá para contratar uma decoradora nem comprar uns tarecos novos, empenhei-me sem qualquer receio, na tarefa de pintar estas paredes esmurradas e com algumas brechas e marca de sapatos atirados ao vácuo em finais de dia, alterando o espaço envolvente para uma harmonia de tons pastel - que acho eu! - vão muito bem com a Primavera que se tem feito sentir.
Meti pés a caminho e fui à procura das tintas e adjacente material mas, o funcionário que me atendeu era um vendedor nato e quando saí da loja senti o peso nos braços não só das latas de tinta e rolos mas ainda, de trinchas de várias polegadas, um artefacto estranhíssimo que é destinado aos cantos, fita crepe auto-colante para protecção de sancas, caixilharias e afins, um plástico do tamanho de uma tenda para cobrir o chão, diluente especifico de limpeza e massa para reparação de fissuras e competentes espátulas contrapondo-se num alivío de carteira tão só aligeirado pela sensação de que de facto, serei um verdadeiro profissional.
Chegado a casa cheio de ânimo, arranquei os quadros e afastei a mobilia para o centro da sala. Bolas! Isto afinal é enorme! Nunca me tinha apercebido como esta assoalhada tinha tanto espaço! Meti mãos à obra, ou melhor dizendo, à fita crepe, mas esta porcaria não é tão fácil de colar como parecía pois pega-se a tudo menos às tomadas que quero isolar e no rodapé trouxe umas bolas de cotão agarrado, que estavam escondidas pelos móveis; e agora é que não cola mesmo!
Acabei por conseguir tirar a tampa à lata de tinta com uma faca que ficou amarrecada e resultou nalguns golpes na mão esquerda. O vendedor tinha razão: as tintas actuais não cheiram a tinta. Cheiram a maçã. A maçã verde misturada com cheiro de tinta. Misturei no tabuleiro uma parte de branco com duas de amarelo, mas o resultado final não foi famoso...o que eu quería era um tom de amêndoa mas saiu-me mais para o banana. Talvez um pouco mais de branco...mas estas artes de fabricar cores têm o seu quê e o peso das latas e o esforço que já havía gasto no transporte e arrasto de móveis deixou-me a mão trémula e nada acertada para o meu objectivo final, com muitos pingos a mancharem o soalho (devería já ter posto o plástico, então?!). Mas convenci-me que depois de aplicada talvez a cor se mostrasse mais a meu contento e determinado, atirei-me à parede riscando a amarelado o que agora me parecía estar muito branco.
De repente, lembrei que não tinha tapado as rachas nem restaurado aquela quina esboroada. Tarde de mais! Já lá havía passado com o rolo. Larguei tudo e enquanto agoniado pelo cheiro do diluente a dissolver o cheiro da maçã, pensei que no dia seguinte havería de iniciar a minha obra pela reparação das fissuras da parede e numa segunda camada de tinta disfarçaría o meu esquecimento.
Além disso, estava cansado.
No dia seguinte, já não recordo porquê não tive qualquer hipótese de voltar aos trabalhos.
Aliás, só passados cinco dias é que peguei de novo no rolo. Comecei pela parede contrária onde tinha iniciado.
No final dessa jornada e ao tentar esticar-me para descontraír os musculos elevei os olhos ao tecto e constatei que devería ter sido por aí que devería ter começado a pintura. Fiquei quase suspenso por um fio invisivel a mirar as pequeninas teias de aranha presas no candeeiro. Esmoreci. Lavei o material com o diluente que acabou por salpicar para o meu olho direito e queimado e semi-cego larguei aqueles objectos mortíferos no lavatório, proferindo casa fora raios e caveiras.
Fui obrigado a supender a minha tarefa até recuperar a noção de distância.
Quando peguei no rolo estava seco como um bacalhau e tal como o fiel amigo deixei-o a demolhar. Durante mais cinco dias.
Afinal a tinta era facilmente removida com água; já que a tinta era da dita.
Maldito vendedor!
Exausto ainda sem ter pegado na trincha, descobri que não tinha um escadote alto o suficiente para atingir o tecto.
Esperei pelo fim do mês e do dia de pagamento para poder adquiri-lo.
 
 
MÊS DOIS
 
 
Resolvi pintar o tecto a branco.
O problema foi conseguir envolver a campanula do candeeiro com a fita crepe auto-colante ao mesmo tempo que me equilibrava no topo do escadote.
No intuito de dar uma boa cobertura na primeira demão, embebi demasiado o rolo e o excesso claro, escorreu pelo meu braço até ao cotovelo, depois para o chão em pingas grossas. Algumas placas de tinta foram alojar-se no interior do abatjour em forma de chapéu de chuva aberto. Não sei bem como algum dia irei conseguir limpar isto...a menos que desmonte o candeeiro.
Tive fortes dores no pescoço. E no ombro direito. E também na mão, quase não conseguía fazer os movimentos de abrir e fechar. Duas bolhas na palma direita ardíam-me e provocavam-me uma raiva mal contida contra mim mesmo.
Nunca me ajeitei a fazer fosse o que fosse à esquerda; ainda tentei, mas o rolo pareceu ter ganho asas e vontade própria, soltando-se da minha mão inútil e arremessando-se violento às vitrines do móvel da sala. Um rasto lamentoso a branco deixou uma marca que até hoje permanece vincada na madeira.
Achei que devería dar a mim mesmo uns dias de folga e de uma necessária recuperação aos meus musculos retesados e inchados. Não sabía bem quais, pois todo o corpo me doía.
Num final de dia de trabalho entrei em casa com uma vitalidade capaz de demolir qualquer contrariedade: olhei a parede com um borrão amarelado em que me tinha iniciado e ignorando a cor que entretanto já havía queimado um pouco pelos raios de sol que atravessavam a sala, pintei-a audacioso de amarelo puro sem a desdobrar a branco.
Terminei a minha obra em apenas três horas e meia.
Senti-me feliz para logo a seguir levar um baque. Então não é que a outra parede estava a banana e esta parecía um prato de caril?!
Soltei um urro, atirei com o rolo para dentro do lavatório e fui encontrar-me com dois amigos meus que estavam na cervejaria da esquina.
Riram-se das manchas na minha roupa e de uma grossa rodela amarela que havía caído na minha calva, mesmo no cocoruto. Confessei-lhes o meu desgosto pela inaptidão de mãos e esmero que a minha personalidade havía revelado.
Um deles aconselhou-me "para eu me deixar disso" e falou-me do seu cunhado que era um homem muito jeitoso para este tipo de habilidades e que levava muito em conta. Passou-me o numero de contacto dele para um guardanapo de papel e mandou vir mais três finos.
Recordo-me que nos dias seguintes fez um calor desabitual para aquela altura do ano. Só apetecía andar na rua. Na verdade, não havíam mesmo condições para pintar: a tinta tinha engrossado e formado carolos grumosos, o rolo já tinha ido para o lixo pois da última vez não tinha sido limpo e nem mesma a técnica da demolhação o tinha salvo.
Resolvi dar um tempo a mim mesmo. Que diabos! Afinal não tinha ninguém a obrigar-me a pintar ou mesmo prazos marcados para terminar a tarefa!
Fui para a praia e apanhei um valente escaldão.
No resto desse mês não consegui - embora o quisesse, de verdade! - voltar a pintar.
 
 
MÊS TRÊS
 
 
Conheci uma miúda lindíssima na praia. Pensei em levá-la lá a casa mas nas condições em que a sala se apresentava era o mesmo que arruinar a minha reputação. E as miúdas ligam muito a estas coisas da arrumação. Fui adiando o quanto poude uma promessa minha de lhe fazer um jantar romântico à luz das velas, mas a eminência dela se desinteressar de vez da minha pessoa, forneceu-me a coragem e determinação para pegar na trincha. Sim, que já não havía rolo.
Fui comprar mais tinta, ignorando de vez os amarelos.
Branco, tudo branco.
Fui a um supermercado e eu mesmo adquiri sem fantasias de vendedor, uma lata de 30lts.
Com afinco e esmero molhei os pelos negros da trincha larga e fi-la deslizar por cima da cor banana, um branco brilhante e puro, acetinado. Lindo. Voltei a embeber a trincha daquela nívea cor e repassei: mas desta vez não deslizava, enrugava-se, deixando pequenos riscos dos desenhos dos pelos, emergindo aquele tom amarelado.
Olhei o balde de tinta, desconfiado: era esmalte, não tinta de água.
Comecei a suar.
E a procurar desesperadamente pelo guardanapo de papel onde o meu amigo escrevera o número de telefone do seu cunhado.
Liguei-lhe mas o homem devía ser mesmo bom, pois já tinha marcações para os próximos quinze dias; é que ele não fazía só aquilo, ele tinha uma profissão, era bancário.
Tentei negociar mas ele mostrou-se irredutível e não tive outro remédio senão aguentar e fazer-me de doente, adiando mais uma vez o tal jantar com a miúda que conhecera na praia.
No final do mês o homem bateu-me à porta às 8 da manhã, equipado com material próprio e para desprezo do meu.
Raspou os bocados de tinta onde havía brechas e betumou-os à perfeição; usou o nível e assobiou irritantemente enquanto colava uma fita crepe com uma precisão sem qualquer desvio ou engelha. Pintou e não pingou, e no final de janelas escancaradas, ainda me ajudou a colocar os móveis nos devidos sitios.
Paguei, senti-me frustrado pela simplicidade da tarefa.
Mas satisfeito, porque finalmente me havía livrado do que parecía assemelhar-se à construção do Convento de Mafra.
Comprei o jantar a uma empresa de catering e com as velas acesas, conquistei a miúda da praia.
Foi então que ela me disse:
- Paredes brancas?! Parece um hospital...não gostas de amarelo-sol?

 
(C.G.-21/05/2006)
 

A inundação

 

 
 
 
Ainda de olhos fechados, cabeça comprimida no conforto da almofada o sentido auditivo fez soar um alarme, fraco, que o sono era muito e talvez sonhasse. Mas permanecia aquele ruidozinho idêntico à chuva, incomodativo, constante que não deixava aquietar-se. Num rompante atirou a coberta para trás e apalpando o escuro da noite foi-se levando pelo instinto, de mão esticada para as esquinas da casa e das portas entreabertas de encontro ao som cada vez mais perceptível de água a cair.
Mas antes de compreender o que se passava, sentiu um frio nos pés descalços apenas aconchegados pelo amontoado das calças do pijama riscado descaídas da cintura: o chão brilhava no breu.
Entrou de rompante na casa de banho e aí, percebeu que havia água no chão. De quanta altura, perguntou-se imediatamente, agitando a mão na busca do interruptor para que rápido se fizesse luz às suas interrogações. E mal deu com o pequeno botão que fazia dia na escuridão sentiu uma mordidela nos dedos que lhe devoraram igualmente o braço, acompanhado de um clarão azul e um ruído rápido e violento semelhante à electrocussão de uma mosca. Abanou o braço e ajeitou-o ao peito, proferindo exclamação tão expressiva como o esticão que acabara de tomar.
Agora os olhos dimensionados ao escuro apercebiam o brilho das torneiras, o som de cascata despenhando de um alto que não atingia. Arrastou os pés pelo riacho que corria vivo corredor fora, sala dentro, embebia os tapetes turcos comprados em segunda mão, experimentando em cada interruptor a força da electricidade combinada com o elemento líquido. Uma vela perfumada a canela que enfeitava uma mesa de canto foi o único archote que conseguiu alumiar, deparando-se com um Titanic prestes a afundar.
Perdido sem saber o que fazer primeiro, se fechar a água, desligar o quadro eléctrico ou gritar por socorro, arrastava os almofadões e alguns livros que haviam sido esquecidos no chão, encostando-os ao tronco, tropeçando nas calças de pijama que atrapalhadas lhe pesavam sobre os peitos dos pés frios.
Procurou o telefone e não o encontrou mas sentiu-se satisfeito por ter achado um cigarro completamente seco que acendeu na vela perfumada de canela e que pingava fervorosa nas costas da mão uma estearina macia e adocicada.
Um pingo mais quente derramou entre dois dedos e a dor tão intensa obrigou-o a largar a vela que de imediato se apegou a um cortinado de nylon trazendo mais claridade à assoalhada. Foi em pânico que soprou a cortina mas num segundo o pano encarquilhou e atiçou-se à estante de pinho dobrada pelo peso dos livros adquiridos num alfarrabista seu conhecido. Num rasgo de  brilhantismo despiu as calças de pijama molhadas e combateu heroicamente o fogo empunhando como um gladiador, aquela arma riscada e mole. E era tal a sua determinação em fazer peito aquele fogaréu que na investida bateu com as canelas na madeira do sofá, fazendo-o tropeçar e estirar-se desamparado para a estante agora manchada a negro da labareda impiedosa.
Deve ter batido com a cabeça, pois perdeu os sentidos.
Quando recobrou estava na sua cama, a coberta tombada no chão, as calças de pijama riscado embrulhavam-se numa perna a outra desnuda, o candeeiro de presença habitualmente na mesinha de cabeceira jazia no chão e o colchão, apresentava uma mancha desoladora e molhada onde ele se aninhava com frio. O coração disparado latejava uma veia forte no pescoço e de imediato não conseguiu distinguir o som da água e o dos seus batimentos cardíacos.
Foi então que se apercebeu que a força da natureza tinha rompido o dique da bexiga a meio de tal pesadelo.
Levou as mãos ao rosto de barba por desfazer, riu-se e declinou um verbo vicentino em tempo reflexivo.
 
9 de Março de 2006
 

Devorée

 

 
 
Duas voltas nas fitas de seda bem cingidas aos tornozelos calejados.
Ágeis, as mãos rodeiam os pés apertados nas sapatilhas gastas e esburacadas junto aos dedos. Bate com a ponta de um pé, depois o outro no gesto repetido, com força, a acamar pé e sapatilha num todo.
E era ver como num efeito dominó na sua queda, pernas e pés a fazerem os mesmos gestos, os mesmos batimentos de ponta e calcanhar, pequenas flexões de joelhos orientados para fora, ajeitando as meias longas.
Primeiro, o trabalho de barra, o aquecimento. Cinco posições base como as mudanças de um carro veloz que  se desenvolve na estrada. Plié, relevé, plié, relevé cantados num ritmo certo, acompanhando notas marteladas num piano negro que contrasta imóvel com a amplitude de braços que sobem e descem, curvas de pé, coup de pied. E pirueta para  voltar a repetir, ligado à barra de madeira já arqueada de mãos suadas, todos os movimentos e curvas para o outro lado.
No centro. No chão, trabalho de abertura de pernas. De pé, agora na diagonal para se aproveitar todo o espaço do salão: os primeiros acordes marcam a partida para o troca-passo, jeté e pirueta a tempos certos que não pode haver atrasos que já trazemos na cauda outros a copiarem os movimentos.
Há gritos, compassos marcados por palmas e bastões que tocam o soalho como no tempo de Molière.
Há desespero na falta de força nos gémeos para subir nas pontas e descer e subir de novo e rodar em duas e três e quatro voltas e ainda sorrir, mesmo sangrando, mesmo a doer por dentro que o limite está próximo.
Tempo de matar a sede, matar a coreografia, ataviar o tutu, confiarmos no par.
Cheira a suor, a desejo, a vontade de dar entranhas.
O que já desesperou dá força agora.
As mãos dele rodeiam a cintura tal como as fitas da sapatilha bem cingidas ao corpo, orientando a perna dela semelhante a um compasso, riscando no ar circunferências de paixão. Gira entre as mãos como um pião lançado, rodopiando ao sabor da vontade dele. Queima no corpo as mãos que agarram, deixam marcas indeléveis, pegadas digitais como pisaduras negras do embate, laços invisíveis que só os sentem quem dança.
É no sous-sous ponteado, no erguer ao alto, nos braços fechados ao peito, no roça mas não toca de lábios que se querem que arda este fogo.
É o amor da dança. É a conquista renovada a cada novo par. É descobrir o querer e o dar ao confiar neste e no outro e naquele também. É a paixão a cada acorde solto.
Quem se iniciou está envenenado irremediavelmente.
É sofrer por tanto se amar, tanto se dar, ser-se feliz.
É como o veludo onde cai o ácido: é tecido devorée.
Marca para todo o sempre deixando desenhos no corpo e na alma, o toque entre o macio do veludo do movimento e o carcomido do ácido na pele, do desejo de mais a queimar.
 
8 de Fevereiro 2006