A grande aventura de João Pereira

 


 
Em Março, dia cinzento, pariu de cesariana: João Pereira vinha ao mundo.
Era um bebé sossegado, sem choro por birra ou fome, quieto no berço, empatado por uma roca a quem tinham tirado o poder de fazer barulho.
Teve as doenças normais para as crianças da sua idade, não fugiu à mão quando o levaram à escola pela primeira vez. Nunca houve queixas dos professores e também nunca conseguiu tirar uma nota para além do suficiente mais, o que deu à justa para cumprir o curso comercial que o seu pai lhe disse que teria que fazer.
Já tinha dado o nome para a tropa mas os pés chatos haviam-no livrado do serviço militar.
Arranjou um emprego num escritório de contabilidade, com horário certo, sem sobressaltos financeiros ao final do mês o que lhe permitiu reunir um magro pé-de-meia: João Pereira não era dado a devaneios da imaginação nem apetências por qualquer vício, ía e vinha de autocarro marcados num horário rígido, usava as mesmas roupas até estarem puídas e a moda era mesmo isso, uma moda.
Os pais apresentaram-lhe uma prima afastada, da província, com quem iniciou namoro por carta mas ao fim de um ano o compromisso quebrou-se, que a moça dera o salto com um homem casado para França e nunca mais ninguém soube deles. Mostrou-se pesaroso pelo abandono durante um tempo de resguardo, rapidamente esquecido quando entabulou conversa de ocasião com uma passageira do seu autocarro.
Ao fim de umas semanas convidou-a para tomar café e informá-la da seriedade das suas intenções, querendo conhecer a família dela. Noivaram por um ano e casaram. Ficaram um tempo a morar em casa dos pais de João, sem discussão ou diferendos, que ela era dócil e acatada nos dizeres dos sogros.
Mudaram-se então para habitação própria, próxima dos familiares, para que as visitas de Domingo ao almoço fossem facilitadas.
João Pereira engasgou-se com o fumo do charuto oferecido pelos colegas no dia do nascimento do seu primeiro filho, a quem decidiram chamar João. Ao fim de dois anos apareceu uma menina e declararam que a “fábrica” tinha fechado.
Tudo corria certo: Foi promovido pela antiguidade da casa e por nunca ter faltado, sendo considerado um empregado exemplar; nas férias faziam uma semana nas termas, que a esposa no último parto havia engordado mais de 20kgs e nunca mais recuperara a silhueta de solteira.
Os anos desfiavam-se num igual de horários, no cumprimento do dever ao trabalho, das obrigações fiscais, no pagamento das prestações do carro e da casa, na sua função de marido ao sábado à noite.
O filho João cresceu e casou, repetindo os passos dos progenitores.
Aos 23 anos de casados, João Pereira arranjou uma amante espanhola alta e magra, maquilhada e perfumada que lhe revelou os prazeres da carne sem a obrigação do compromisso social mas a quem no entanto, gostava de agradar, pelo que sempre lhe levava meia dúzia de pastéis de nata no encontro mensal que tinham.
Foi a vez da filha casar e sair da alçada da família Pereira.
Achou-se João e a mulher sozinhos na casa e na relação: pouco havia para dizer pois pouco havia de emoção vivida.
Partiu a mãe, e João viu-se na obrigação de recolher o pai Pereira, instalando-o no antigo quarto que fora da filha e entregue aos cuidados de sua esposa que cada vez mais gorda, menos se mexia.
Partiu também a espanhola, para uma morte fulminante em plena actividade profissional nos braços de um outro amante, facto que pela primeira vez na vida, trouxe a João Pereira algumas noites de insónia não tanto pela falta dos prazeres do sexo mas mais pela preocupação que o pudessem ligar àquela castelhana de conduta duvidosa. Mas o tempo passou e aos poucos a tranquilidade regressou à sua vidinha rotineira.
Fez um funeral condigno ao pai quando este se foi, para grande alívio da esposa, cada vez maior.
Mas a vida é mesmo assim e se a casa de João Pereira num dia se vazava no seguinte enchia-se: vieram os netos em correria, desafiar a paciência da avó e a pouca mobilidade que esta tinha, puxaram as calças e a atenção de João Pereira fazendo perguntas às quais ele não sabia responder.
Cresceram os netos e o silêncio voltou.
Reformou-se.
Por esta altura tinha o carro completamente pago e não tinha nos seus horizontes adquirir mais nenhum, que este estimado, ainda duraria mais uns dez anos ou pelo menos até ele deixar por completo de conduzir.
A casa onde moravam tinha o empréstimo bancário satisfeito há mais de um ano.
Ao fim de seis meses em chinelos, completamente perdido da rotina de tantos anos, sentiu uma dor forte no coração e depois de esperar bastante foi-lhe diagnosticado pelo médico de família uma angina de peito.
Passou a comer de tudo com peso, conta e medida ou seja, muito pouco, pouca diversidade e muito desânimo.
Ficou viúvo e um enorme vazio tomou a casa, não só pela saudade como pela abundância de espaço que a esposa ocupava.
Os dias cada vez maiores e as noites cada vez mais longas arrancavam-lhe suspiros profundos e uma letargia que quando nela pensava, não encontrava a sua origem. Chegou mesmo a sentir tristeza e tão pouco sabia porquê já que nunca tinha sido infeliz.
Pensou até e mais do que uma vez que a vida tinha sido generosa com ele.Tentou passar o filme da sua existência e achar uma coisa mal feita, um engano seu, um sobressalto…mas nada. Era uma folha limpa.
Tão limpa e imaculada que nela encontrou a grande falta da sua vida.
E foi precisamente no dia em que descobriu esse segredo, que morreu.
 
9 Fevereiro 2006

Quem ensina quem



 
 
As mãos enterradas fundo nos bolsos, o queixo um pouco deitado sobre o peito arqueando-lhe as costas largas, o olhar vigilante perante o desfile ruidoso daqueles pés pequenos que matraqueavam o soalho a compasso de gargalhadas e puxões de cabelo e fitas de bata armadas em laços farfalhudos.
O Prof. Ricardo de pé, mais alto que a sua altura por estar no estrado que vigiava a sala de aula, aguardava em silêncio que os novos alunos se acomodassem. A pasta de cabedal, manchada na pega e no fecho de metal pelo uso da mão, estava gorda de papéis.
Entraram vinte e três. Ele fechou a porta. Identificou-se como o Prof. Ricardo de Ciências Sociais e Humanas. Apercebeu-se da troca de olhares e algum pânico na cara daqueles miúdos de onze e doze anos. Tentou suavizar o ambiente e perguntou-lhes o nome individualmente: pela primeira vez haviam turmas mistas e só três no total daquela escola. Organizou o discurso, tentando disfarçar o seu nervosismo com as mãos ainda escondidas, um tom de voz demasiado baixo para que no fundo da sala se pudesse escutar, começando por explicar que “eles” faziam parte de um projecto-piloto, único no País; que iriam ter disciplinas de que nunca teriam ouvido falar mas que ele, assim como os outros colegas estavam ali para os ajudarem.
E a primeira coisa a fazerem era aproximarem-se uns dos outros: pediu que dessem as mãos mas rapidamente um rapazinho sardento e de nariz afiado concluiu que era uma tarefa impossível, por causa das secretárias dispostas como bancos de autocarro. O Prof. Ricardo mandou-os levantar e dirigiu-se ao altivo estrado e pediu que um deles tomasse assento à sua mesa e então daí, tentasse agarrar a mão dos outros. Gargalhada geral que todos perceberam a incapacidade.
O Prof. Ricardo pegou na sua secretária e levou-a para junto das dos alunos, puxando igualmente as mesas deles e pedindo ajuda, dirigiu as mudanças no meio de um reboliço barulhento, com muito arrastar e gargalhada à mistura, enganando-se uma e outra vez a chamar pelos nomes deles, o que só provocava mais riso entre todos.
No final, todos ficaram silenciosos a olhar para o resultado: agora havia um círculo perfeito e fechado, uma mesa redonda gigante. Sentaram-se e sem pedido, o Prof. Ricardo viu formar-se uma corrente de mãos, sendo ele o ultimo a atar as suas nas pequeninas que se lhe davam.
Percebeu de imediato que aquelas eram gentes especiais, muito longe das turmas problemáticas que até então havia tido e resolveu jogar tudo de uma só vez: distribuiu, fazendo correr os programas de mesa em mesa, um tema a ser estudado e debatido; seriam eles que levariam o material de estudo e apresentariam para os demais o trabalho feito em grupos; cada grupo teria um moderador e um orador.
Uma menina assustou-se e inquiriu o Prof. Ricardo quanto aos testes, quanto à maneira de recitar as aulas, quanto aos livros e o material a comprar…ele sobressaltou-a mais ainda quando, claro e bom som, decretou que não haveria testes ou exames com ele. Apresentou a bibliografia a procurarem os sítios onde deveriam ir, sublinhando o pormenor dum jardim junto ao sítio tal ou tal, ou uma casa de gelados onde deveriam experimentar o molho de morangos com amêndoas.
O grupo barulhento estava perplexo, sem saber se isso era bom ou mau.
Entrou a Prof. Teresa com um gravador pendurado e os alunos levantaram-se.
Ela fez sinal com a mão, num gesto leve de pluma que cai, para que se sentassem e beijou o Prof. Ricardo nas faces, ligou o gravador à tomada e com um dedo esticado calcou um botão preto que de imediato, fez soltar uma voz forte e rouca que proferia “OH! Lord, won’t you bye me?”.
Os dias passaram, as semanas, as férias escolares vieram mas sempre se encontravam: ou numa biblioteca ou se organizavam para irem professores e alunos ao cinema ver um filme sobre o nazismo e o colaboracionismo, ou uma exposição sobre Rodin, até mesmo à Ópera foram.
Um ano decorreu desde que o Prof. Ricardo havia esperado por aqueles miúdos, que agora que se aproximava o segundo ano desse projecto-piloto, tinham crescido.
A elas crescera-lhes os seios, a eles a voz tornara-se grave, um e outro olhavam-se de forma especial despertando para o amor.
O Prof. Ricardo também estava diferente, mas só por dentro.
Sentia-os não como seus filhos mas como homens e mulheres, amigos, leais, cúmplices de um só sentir.
O segundo dos anos terminou: fizeram uma festa, com muito riso, muita recordação, muitas lágrimas.
Os pequeninos já não eram pequeninos, tinham altura e personalidade definida.
Seguiram os caminhos da vida, um foi médico outra partiu para África para uma causa humanitária, outro cineasta aquela professora de linguagem gestual…
Passaram trinta anos.
Organizaram um jantar, ainda todos estavam vivos e juntos na mesma vontade de se encontrarem.
Os professores tinham falta de cabelo e rugas, reumático e muitos quilos a mais. Mas o sorriso e o brilho nos olhos era tão igual ao que passara.
O Prof. Ricardo bateu as palmas e pediu a atenção de todos.
A rirem e com muito arrastar de cadeiras, levantaram-se os alunos. A Prof. Teresa repetiu o gesto de pomba que levanta voo.
O Prof. Ricardo tirou os óculos que agora tinha de usar e falou do lançamento de um livro seu, que muito gosto tinha em que todos estivessem presentes nesse dia.
Alguém em voz alta, lá do fundo da mesa, gritou:
- “ Como arranjou tempo, sempre a dar aulas, para escrever um livro, Professor?”
Ele enfiou as mãos nos bolsos, nervosamente, as costas agora arqueadas do tempo e da vida.
- “ Depois que se foram embora, só leccionei mais dois anos…foram os piores da minha vida. Não aguentava mais…Não queria mais, sem vocês… Renunciei à colocação e fui demitido! Ainda bem! Senão não estaria aqui, agora, convosco que me ensinaram tudo”.
 
 
24 Janeiro 2006