Cartas

 
 
 
 
Rodou, rodou e rodou. Três voltas cuidadosas, os dedos a apertarem o toco de pau, carinhosamente, era o que sobrara do que tinha sido um elegante e comprido lápis. Afinal um simples lápis de escrever desses que quando ainda existia o hábito de o fazer à unha se sossegava atrás da orelha para não se perder o tino do lugar, era coisa de homem feito com profissão, aliás fazia-se o mesmo com os cigarros, era para gente grande, está-se a ver. Agora restava-lhe um pedacinho, curto, nem dava para afiar no canivete por isso apontou-o ao afia e rodou por três vezes.
Era o sobrevivente de meia-dúzia. Dos outros nem o rasto, por isso a esta sobra reservava escritos de importância, coisa grande.
Pigarreou, olhou a folha branca e a sombra alongada pelo lápis curto e poupado que a luz do candeeiro projectava. 
Assentou o bico na folha, fez pressão e recordou-se da conversa sobre o gosto dos lápis, a escrita com lápis, há quanto tempo tinha sido e os anos a passarem e eles a escreverem sobre mares e rios e à espera de palavras a lápis que no fundo eram macias como a escrita feita destes mas tão mais semelhantes à pele das mãos quando se escapa na queda e estão lá para se agarrarem com calor, som do estalo a colarem-se uma na outra, vida a chamar vida, uma contínua corrente que prende o navio e não o deixa à deriva, assim tinham sido as palavras de anos nas cartas trocadas. Era mais que um gosto ou uma companhia esperada, era a confiança da confidência, o conselho sem a condenação do juízo.
Um ponto.
Levantou o lápis. Sorriu e escreveu: Desta vez fica por minha conta, mando eu a meia-dúzia.
E dobrou junto o que restava apertado nos seus dedos na folha de carta a enviar.
 
 
 

Apanha-me!

 
 



Cheirava a terra molhada, suor, bosta de cavalo e aquele envinagrado do sangue que sempre parece deixar um rasto nas narinas mesmo que se fuja para longe.
Dói-lhe o braço, o ombro, a mão e nem mesmo o calo de anos de treino e a protecção de couro fino para que não perca a sensibilidade do fio, após tantas horas de disparo, consegue evitar o corte junto ao encaixe das articulações do dedo médio. Mas não pára, não baixa os braços, não se rende, incentiva os outros.
Já passaram cem anos e hoje é só mais um dia e não será neste que se vai entregar. Os gemidos e os gritos da dor lenta da morte não o afligem, habituou-se a eles, são os sons de campo de batalha, tão normais como o cantar da cotovia na sua aldeia. Aqui, em terra estranha e inimiga só existem estes cantares e até destes precisa ouvi-los para não esquecer, para sentir a raiva que lhe dá o poder de erguer o arco do seu tamanho, mirá-lo na extensão plena da sua corda fina e derrubar mais um francês acobardado naquela moita.
Fechou o olho esquerdo, o cotovelo direito ponteou elevando-se à altura do ombro, sente o fio tenso como uma corda da harpa de um bardo raspar-lhe o queixo, o nariz, a mão firme na direita do seu braço. Solta e ainda ouve o silvo da flecha cortar o ar, os gritos, o relinchar. Não sabe se acertou no alvo mirado, sentiu uma pancada na nuca e viu muito rápido junto à cara o verde revolto e espezinhado numa poça de sangue, depois tudo escuro.
Ouve sumido um linguajar que não entende, o chão a rodar, a cabeça próximo dos pés, cheira a fezes e urina, sangue e carne podre, tem terra na boca, nos olhos, sacode a cabeça e cospe. Está sentado no chão com mais companheiros, todos amarrados, foram apanhados, agita-se no frenesim da besta caçada e procura desesperado libertar-se do cativeiro, pedem-lhe os outros que seja digno e honrado nesta hora, que muitos sabem o que acontece aos arqueiros aprisionados. Ele também sabe mas não quer ser mais um.
O companheiro do seu lado é levado pelos cabelos até um tronco aparado e vermelho. Assentam-lhe a mão direita recolhendo os dedos apenas sobrando o médio. Resigna-se, cerra os dentes, sabe que chegou a sua hora e invoca o rei. O som seco do carrasco a separar o dedo poderoso cala por uns segundos o tempo. Empilham-se dedos roxos e cobertos de insectos ao lado do tronco. O arqueiro desfalecido é arrastado para um canto.
Chegou a sua vez, retiram-lhe as cordas para libertar o braço na amputação que o desonrará da sua linhagem. Chuta, esperneia, morde a mão respingada de sangue inglês do carrasco, cabeceia o seu opressor, urra e na surpresa de todos apanha a oportunidade e corre, corre, corre muito que a morte vem lá.
Sente-os no seu encalce, cheira-os mas ri como um louco e antes de desaparecer no nevoeiro que entretanto tombara, volta-se para trás e grita APANHA-ME! espetando bem alto o dedo médio calejado. Mas inteiro.