As amigas

 
 



Engoliu. Não havía alimento para descer, nem água, tão pouco cuspo que tudo lhe havía secado no instante e até as lágrimas que sentía a arder não vinham, só o queimado a incendiar desde a boca do estomago até aos lábios apertados que não tinham perguntas a fazer perante o que acabara de ouvir. Depois de se ouvir as palavras que ouvira não há nada a dizer, não há nada a dizer, escutava na sua cabeça e rasgavam-lhe gritos mudos por dentro na interrogação, quería fugir e sentía-se pálida nos pés, nas mãos, no rosto e tudo lhe incendiava porém.
Engoliu as palavras que ouviu. Caíram como pedras para dentro de um estomago oco, ofendendo a alma.
Baixou os olhos, sentiu vergonha de si e não sabía porquê.
 
Às vezes achava-a triste e intrigava-se com tão profunda melancolia, uma quase queda para dentro de si que a fazía desaparecer, engolida como se fosse um chão de si mesma a abrir-se em fenda que depois se quisesse cerrar como sepultura. Tinha receio de a abordar nesse estado por lhe parecer tão delicada. De outras, os olhos parecíam chamá-la a pedir ajuda e ela não estava certa se era pedido de socorro ou apenas o mote para iniciarem conversa de circunstância.
Acabaram a falar por intermédio de terceiros e ao final de um par de horas, a conversa deslizava como se uma necessidade de ambas as tivesse posto naquela posição por uma força maior.
Não se tornaram inseparáveis, mas amiúde a procura aproximava o diálogo intimista e revelador e um dia ela perguntou-lhe porque era ela uma mulher tão triste.
Não houve resposta.
As lágrimas rebolavam pela face, pelo pescoço, pela camisola, era um rio silencioso imparável.
A outra não sabía o que fazer. Muda, deu-lhe a mão e assim se mantiveram até o choro acalmar e por fim se esgotar num silêncio seco, com uma despedida às pressas sem olhar.
E por cada vez que o assunto era aflorado vinham as lágrimas, a mão já não chegava para o consolo porque já o sabía e escondía-se num cruzar de braços, e as palavras começaram a fazer perguntas sobre tanta água, tanta amargura, tanta morte no olhar.
Era o amor e o desamor.
Amava um homem e estava presa a um outro do qual não se podía libertar sob pena deste se condenar a um destino que lhe cobraría a vida inteira ensombrando-lhe o coração, impedindo-lhe no fundo, de amar.
E a verdade, não conta?
Não, não conta, o que contava era o que se vía e o que se vía não era o que ela mostrava de verdade, porque lágrimas e dor e amor, só com ela se permitia libertar, a mais ninguém, nem ao amor, prefería fingir que tudo estava bem a pensar num gesto desesperado, e a quem estava presa, mentía igualmente, fazía de conta que estava como sempre tinha sido.
Até quando? Uma vida dupla até quando? Um dia iria olhar para o espelho e havería de querer escolher ou então não saber qual preferir ou pior nenhuma aceitar, liberdade, liberdade no coração e na alma, mais lágrimas até haverem mares que afoguem homens e nenhum se salve para salvar-te...
 
As quatro estações rodaram e as lágrimas não fizeram nem um ribeiro, vieram sorrisos, gargalhadas, palmas. Estava bonita, um semblante brilhante e iluminado, faladora, parecía ter rompido de uma pele velha apertada para surgir viçosa.
A amiga chegou-se perto e sorriu-lhe, ela correspondeu. Perguntou-lhe como estava, como ía a sua vida, que a vía bem e feliz e ela respondeu que não a quería metida nas suas coisas, não eram do seu rosário, que não se envolvesse em assuntos que não lhe dizíam respeito.
Ela engoliu.
Sentiu vergonha de si, mas da amiga também.
 
 
 

O concerto

 




Mal entrou sentiu o ferimento das luzes artificiais nos olhos e a pancada de calor contra o casaco no peito a colar-se-lhe. O passeio a pé desde casa até ao teatro soubera-lhe bem, estava fresco, trauteara alguns trechos que conhecía da autoria dos compositores que iría agora escutar, um serão planeado com antecedência, decerto casa esgotada, sentía que o fim-de-semana começara bem.
 
Deu alguns passos, usou o programa para se abanar disfarçadamente, observou as gentes no átrio, o seu comportamento, reprovou intimamente um pequeno grupo que falava alto e as senhoras trajavam de longo, nos braços ramos de flores, rosas brancas notou. Procurou no programa pelo nome de alguma solista que lhe tivesse escapado, mas não, não havíam solistas nem outras figuras de destaque, para quê as rosas brancas, os vestidos de cetim até aos pés se não é noite de estreia.
O pequeno grupo ría muito e muito alto, com a cabeça para trás, falavam uma língua estrangeira com muitos menhês e proquenhês e ele não entendía outros sons que não fossem esses, que raio, pensou.
 
Abriram-se as portas, ele esqueceu o grupo, entregou o seu orgulhoso bilhete e foi levado ao seu lugar: Fila B, lugar 12. Mesmo no meio e à frente.
Conseguía escutar os músicos a aquecerem os instrumentos, aquele zumbido caracteristico das cordas a serem dedilhadas, afiadas pelo arco e esticadas em sons altos e baixos criando uma espécie de cacofonia.
Olhou o relógio, estavam atrasados vinte minutos, desligou o telemóvel, não tinha mensagens, acomodou o traseiro no fofo da poltrona e traçou os pés preparado para receber aquele banho espiritual.
 
O primeiro músico a entrar foi o contrabaixo.
E na fila atrás da sua o grupo barulhento que na meia-claridade apalpava os assentos, tropeçava nos vestidos e rangía o celofane do embrulho das flores. Escutou-se um shiu pela sala à medida que os restantes músicos entravam em palco e a platéia batía palmas. Ele irritado rodou a cabeça e fez cara feia mas a única coisa que recebeu foi um joelhada na orelha direita de uma das senhoras que prontamente lhe apresentou um proquenhês repetidamente.
 
O maestro apareceu todo de cinzento e de braços abertos curvando-se ligeiramente, mais uma ovação.
 
O concerto começou.
 
Joly Braga Santos abriu a noite. Algumas tosses veladas pontuavam a sala, depois o toque insistente de um telemóvel que ficara esquecido num bolso, mas o que o perturbava mesmo era o constante barulhinho nas suas costas, sussurrado, entrecortado pelo ruído plástico dos ramos de flores a serem tocados e de quando em quando um estremeção, uma espécie de chuto que recebía no encosto do seu lugar e lhe disparava o coração e a concentração.
O maestro tinha uma risca de suor que lhe escurecía a gola e a costura do meio da casaca dando um efeito borboleta, e à medida que conduzía a orquestra aguardava-se que levantasse voo a qualquer instante, o que mais burburinho e ânimo decerto suscitou na fila C pois as palmas arderam a par com os Brrrravos muito arrastados e martelados nos erres. Ele nem aplaudiu, sentia-se esmagado. E ao observar o maestro a dirigir um olhar de agradecimento muito especial às senhoras atrás de si no gesto largo da mão e na vénia dobradissima exibindo o lustro da calva, tudo lhe pareceu claro: Eram todos do mesmo sitio, estava visto.
 
Procurou o programa, correu as letras com a ponta do dedo na busca do nome do maestro mas a pouca luz não lhe trouxe nenhum esclarecimento. A partir daí, já não conseguía ouvir mais nada, tudo lhe era desafinado e terrível. Pensou em saír mas o segundo compositor estava ao rubro e a platéia parecía completamente concentrada na sua figura. Levantar-se, recortar-se no contra-luz do palco era o mesmo que humilhar-se, sería o mesmo que desrespeitar toda a orquestra.
 
Afundou-se no assento. O estomago rugiu-lhe. O jantar leve a pensar na ceia após o concerto e depois a caminhada, já se tinha ido. Pensava em Mozart e em pão com manteiga, num requiem e em largas fatias de pão alentejano com lascas de manteiga.
 
Tchaikovsky enchía a sala e por essa altura o ar condicionado foi ligado ao máximo. Sentía frio. Desejava desesperadamente pelo intervalo para partir e esquecer tão malfadada noite. Mas as peças parecíam intermináveis e o desejo de pão com manteiga um crescendo que lhe trouxe água na boca, inquietação e ansiedade dificeis de suportar.
 
Farto do desassossego atrás de si virou-se e de dedo esticado fez o sinal de silêncio acompanhado de um sht curto mas sonoro.
A fila atrás de si ergueu-se de uma só vez.
Ele agachou-se e protegeu a cabeça.
A ovação fez-se sentir, os bravos replicados, toda a sala de pé, encore pedíam, os músicos de pé igualmente, o maestro como Cristo-Rei, os estrangeiros junto ao palco a entregar os ramos, as mãos juntas numa adoração.
 
As luzes acenderam-se, a sala vazou.
 
Vieram buscá-lo e perguntaram se se sentía bem. Um pouco fraco disse, a limpar a testa. Levaram-no até à cozinha do restaurante, serviram-lhe chá para a indisposição. Ele pediu um pouco de pão para acompanhar, se não fosse muito trabalho. De todo. Pão com manteiga, se faz favor.