Do outro lado é o mar

 
 



Às sete atrasadas saía e batía com a porta escapada da mão, carcaça mordida na boca, camisa desabotoada, gravata no bolso. Era sempre a descer e a escorregar até encontrar o outro que nos mesmos preparos e de cigarro nos beiços o espreitava das águas furtadas, de tronco a furar a pequena janela, quando a esquina se dobrava para mais uma descida íngreme em pequenos degraus polidos até se desprender em rua de cubos graniticos habituados à guarda montada.
O corte do assobio e a resposta, códigos.
As quatro pernas corríam desalmadas, as camisas como velas enfunadas e protegidas pelas laterais dos casacos, os sapatos ritmados no som ecoado do silêncio batido no solo e que desperta o inicio do dia.
Suados, vermelhos, ajeitaram calças e genitais, penduraram gravatas, alisaram a popa da moda, sentiram as moedas chocalhadas na poupança da corrida. Sábado havería lanche.
Entraram no barco, galgaram o lance de escadas, puseram-se à ré e ao fresco pendurados no varandim circundante, cumprimentaram o Mestre.
Na concha da mão protegeram o lume do fósforo e no consolo, expeliram fumo pelas ventas, olhos fechados, a mão a vaguear pelo rosto mal barbeado, o som do coração a escutar-se maior que as bombas do barco e todo aquele lençol de água a pedir companhia, um leito imenso.
- Ali é o mar.
- Onde?
- Ali.
- Um dia hei-de ir por ali, não hei-de vir a correr como um doido para me enfiar num barquito como este e só chegar aquele lado.
- Mas ali é o mar! E tu sabes bem o que isso é.
- Não falo desse mar, falo de outro.
- Pois eu falo do mar que leva os homens, falo da guerra, falo que quando voltam, quase sempre veem deitados e eu quero continuar a correr!
- Eu não. Eu quero ir por aquele mar que me há-de levar para um sitio diferente, quente, bonito, onde não tenha que correr nem usar gravata, nem morar num sitio onde tenho de andar dobrado.
- Pois sim, estou a ver que tens medo de perder comigo!
- Vai uma aposta?
- O que é que vale?
- O mar.
- Não, isso não.
- És um medroso. Do outro lado é o mar.
- Do outro lado do quê? Da nossa vida?
- Do nosso sonho.
- Não quero falar mais sobre estas coisas. Já chegámos.
- Encontramo-nos no regresso, até.
Na volta as sete eram esticadas em paragens de passos de tango, dois à frente rápidos, um lento, afasta à esquerda, gargalhada, repetição.
Mas só o ruído das sombras despegadas pelas solas no escorrer da penumbra, recordava o ciclo dos dias para quebrar a excepção dos anos. Houve tosse puxada para inicio de conversa. Medo também. E principalmente a vontade de não haver lugar para dizer fosse o que fosse.
- Não digas.
- Não disse nada.
- Não digas que me vais dizer que te vais embora.
- Não vou. Vou à procura do mar. Depois volto.
- Já disseste e eu pedi para não dizeres!
- Mas que dificil é falar contigo! Porque não vens comigo?!
- Porque eu não sou como tu. Eu tenho o rio.
- Eu preciso do mar, só assim saberei ver o rio.
 
 

Estória de uma árvore

 
 
 
 



Olharam-no como se fosse uma aparição.
 
Ficara-lhe o gesto dos tempos de seminarista, dedos entrelaçados no fervor da oração em que se prendia o terço, a concentração e a essência numa concha, sinal pequeno do que é o homem perante a obra maior, a humildade a caber num pedaço de mãos.
Tinha dedos delgados e compridos, punhos fortes e ainda assim de uma elegância que não suspeitava que suportasse com tal leveza as pilhas de livros, que como ajudante do padre bibliotecário, tivesse de carregar.
Era ágil mas delicado, rápido mas harmonioso, cumpridor sem ser subserviente, gostavam dele e ele parecia não desgostar de ninguém.
 
Era um bom menino no seminário, um bom filho em casa.
Mas chegada a hora dos votos e apesar de tantos anos entre paredes de silêncio, devoção a um só, estudo, o caminho da castidade, o exame final deu-lhe um chumbo e aprovado mesmo, só teve a vida comum de um homem como os outros. 
 
Talvez que olhos mais atentos lhe tivessem atinado que a trama dos dedos se forçava e por vezes até tremia, que o terço balançava ao invés de ser rodado nas suas contas, e o gesto de fechar as mãos ao corpo mais se assemelhava a um tique do que a um acto de pura fé sentida.
Mas ninguém o podia acusar da sua manifesta diligência na biblioteca e desvelo tantos com que tratava os livros, sempre a arrumar, arquivar, a trazer e buscar.
Onde o queriam achar fora das obrigações de reza era lá, logo dispunha os dedos naquele entrelaçado côncavo, de pé se estava sentado em sinal de respeito aos que chegavam, partindo em silêncio após, para não perturbar os que aí permaneciam no estudo.
 
Ficou no seminário por muito tempo, homem feito, de barba comprida e tal era boa a sua alma que nenhum padre teve a condição de o mandar embora. De casa já nada havia, nem paredes nem memória, por isso não tinha saudades nem a dor dessa ausência, apenas uma concha de mãos a recordar que tinha nascido fora daquele sitio onde lhe parecera ter estado por toda a sua vida.
 
Certo dia não deram com ele, procuraram até à exaustão, gritos para cá e para lá, tocaram o sino mas nada, ainda foram ao que restara da casa de infância mas o mesmo de zero, esfumara-se como se nunca houvera existido. Repetiram a busca no dia seguinte e no outro chamaram a Guarda, e ainda por mais dias e depois cada vez mais espaçado diziam o seu nome, e depois já nada diziam, só pensavam ou lembravam-no nas graças da oração, mas não todos, só o padre bibliotecário que já estava muito muito velho e precisava mesmo dele.
 
Passou-se um ano, mais um par deles e ainda um outro.
 
Quando o padre bibliotecário foi a enterrar, descobriram entre as suas coisas, um velho livro em latim, escrito e desenhado à mão, sem denúncia de autor, intitulado  "Árvore com vidas". Era belíssimo, com ilustrações a carmim, açafrão e ouro e minuciosamente descritivo quanto à plantação de uma árvore com propriedades extraordinárias que confería a imortalidade àqueles que dela nascessem como seus frutos. Não que os comessem, mas dela brotassem.
O livro foi imediatamente levado e nunca mais foi visto.
 
Quando a Primavera veio e as primeiras flores rebentaram, rosadas, pálidas do frio mas açucaradas do morno que já ía acontecendo, a árvore junto à sepultura do padre bibliotecário rachou o seu tronco e exibiu o seminarista desaparecido havía uns anos.
Vinha de sorriso nos lábios, a barba comprida, os dedos entrelaçados no fervor de uma oração.
 
Vinha nú.
 
Talvez que olhos mais atentos tivessem apercebido que a concha composta das mãos, escondía as notas copiadas para as palmas dia após dia, ano após ano, de uma tradução laboriosa e complexa do latim arcaico de um certo livro achado à sorte, e que ter-se enterrado a si mesmo sob as raízes de uma árvore significava quiçá um suicídio.
 
Mas o que ele quería era mais tempo para aprender e isso só a árvore lhe podía dar.